03/03/2026
ATON: O PRINCÍPIO DA FÉ MONOTEÍSTA HUMANA
A história humana remonta a milhares de séculos e, muitas vezes, apresenta-se fragmentada. Normalmente, quando falamos do princípio das religiões monoteístas, evocamos imediatamente a história de Abraão, que rompeu com o politeísmo na terra de seus pais e passou a seguir o monoteísmo uma fé centrada em um único Deus.
Séculos antes de Abraão, porém, surgiu no Kemet (antigo Egipto) um homem chamado Akenaton. Coincidência ou não, assim como narrado na tradição abraâmica, Akenaton rompeu com o politeísmo kemético e passou a seguir uma fé centrada em uma única divindade: o disco solar Aton.
Mas por que Akenaton centrou sua fé no sol?
Porque o disco solar representava a manifestação mais visível, universal e vital da divindade. O sol era fonte de luz, energia e vida para todos os seres, simbolizando ordem, verdade e dependência total da humanidade a uma única fonte criadora. Diferentemente das divindades locais e antropomórf**as, o sol era universal brilhava para todos tornando-se um símbolo ideal de unif**ação religiosa e também política.
Há mais de três mil anos, todas as divindades egípcias foram oficialmente substituídas por um deus único: Aton, o disco solar irradiante, símbolo da vida, do amor e da verdade. Essa reforma abalou profundamente o clero todo-poderoso de Tebas.
As representações artísticas mostram Nefertiti e Akenaton de forma excêntrica, em sintonia com o espírito inovador do casal real.
Na história do Egipto antigo, não há casal mais emblemático do que o rei Akenaton e sua esposa Nefertiti, no século XIV a.EC. Por mais incomuns que fossem suas representações, o fascínio que exercem não se limita aos seus aspectos físicos.
Ambos tornaram-se figuras simbólicas da civilização egípcia por terem protagonizado o único cisma religioso profundo conhecido ao longo dos três mil anos de história egípcia. Ao destituir o todo-poderoso clero de Amon para impor um deus único, representado pelo disco solar Aton, Akenaton abriu, pela primeira vez na história da humanidade, um caminho institucional rumo ao monoteísmo.
O reinado deste faraó, por muito tempo erroneamente qualif**ado como “herético”, situa-se no final da efervescente XVIII dinastia, por volta de 1358 a.EC. A civilização egípcia encontrava-se em plena apoteose. O Egipto jamais havia alcançado tamanha opulência e refinamento. Após as grandes conquistas de Tutmósis III, o período era de relativa paz. Amenófis III, pai de Akenaton, expandiu pelo Oriente o poder e o brilho de Tebas, transformando-a no centro de um vasto império internacional.
O deus Amon era amplamente venerado. O clero de Tebas tornara-se mais poderoso e influente do que nunca, constituindo um verdadeiro “Estado dentro do Estado”. Essa situação já havia preocupado diversos soberanos que, em vão, tentaram conter as ambições políticas dos chefes religiosos. Amenófis III tinha plena consciência do perigo que esse contra-poder representava para a autoridade real.
A descoberta de seu palácio, construído na margem oeste do Nilo, distante de Karnak o que não era habitual levou alguns pesquisadores a sugerirem a hipótese de uma ruptura voluntária com o clero de Amon. O próprio nome do palácio, “A casa de Nebmaatré é o disco resplandecente”, associava o soberano ao disco solar. Tiya, esposa de Amenófis III durante trinta anos, já venerava o disco solar Aton mais intensamente do que Amon, o deus oficial.
Na educação de seu filho, o futuro Akenaton, Tiya incentivava o culto desse deus cujo ideograma reflete a natureza: o olho de uma divindade celeste, cujo círculo evoca a íris e o ponto central a pupila. Após a fundação da nova cidade Akhetaton ela permaneceu em Tebas, possivelmente para manter o equilíbrio entre o clero de Aton e o de Amon, evitando tensões populares.
Para o egiptólogo Alexandre Varille, “a revolução de Akenaton foi mais uma reação contra o poder temporal de Amon do que uma modif**ação profunda da religião. O famoso Hino ao Sol de Amarna exprime a mesma filosofia unitária presente em múltiplos textos do mais antigo Egipto.” Desde o início do período histórico, a religião egípcia já se apresentava organizada, refletida e sistematizada pelos teólogos, mantendo uma notável uniformidade ao longo de três milênios.
Essa harmonia intelectual traduziu-se em uma reflexão teológica praticamente ininterrupta, cuja inspiração brotava de suas próprias tradições. Por exemplo, os textos religiosos gravados nas pirâmides da V e VI dinastias foram copiados nas tumbas do Médio Império e novamente utilizados na XXVI dinastia. Esse caráter singular pode surpreender, pois transmite a impressão de um vasto amálgama de divindades provenientes de todas as regiões do Egipto, mas sustentado por uma profunda unidade conceitual.
📚 Referências Bibliográf**as
✓Griffiths, J. G. História do Antigo Egipto. Lisboa: Editorial Presença, 2010.
✓Vercoutter, J. O Egipto e o Próximo Oriente. São Paulo: EDUSP, 2012.
✓Assmann, J. Religião no Egipto Antigo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.
✓Cheikh Anta Diop. Civilização ou Barbarismo: O Fundamento Histórico do Homem Negro. Lagos: Published in Africa, 1989.
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