06/10/2026
O Coreto que homenageia a história hoje expõe o descaso da Prefeitura.
O Coreto Municipal João Baptista Cilli recebeu o nome de um homem profundamente ligado à música, à cultura, ao empreendedorismo e à história de uma tradicional família arceburguense. A própria Prefeitura registra que a homenagem representa seu legado político, cultural, empresarial e familiar.
Também está ali a memória da família Bevilacqua, representada pelas antigas ferragens do coreto histórico, parte delas incorporada ao atual espaço. E o próprio Município reconhece que o Coreto foi tombado como bem cultural justamente por sua importância histórica e cultural.
Tudo muito bonito no discurso. O problema é quando se olha para as paredes. Aí a história muda de tom.
As fotografias mostram pintura descascando, reboco deteriorado, manchas, umidade, fiação elétrica exposta e sinais evidentes de falta de conservação.
E não estamos falando de um imóvel qualquer. O Coreto consta oficialmente entre os bens protegidos por tombamento municipal, por meio do Decreto nº 102/2023.
Ou seja: o Município reconheceu oficialmente o valor daquele patrimônio e estabeleceu uma proteção especial para ele.
Mas patrimônio tombado não pode ser tratado como cenário descartável que recebe atenção somente quando há evento ou fotografia oficial.
E aqui entra uma questão ainda mais básica: dinheiro público.
Manutenção preventiva não é luxo. É economia.
Uma pintura preservada custa menos do que recuperar uma superfície depois de anos de deterioração. Um pequeno reparo custa menos do que uma restauração de maior proporção. Uma infiltração identif**ada no início custa menos do que reparar os danos provocados pelo tempo.
É uma questão elementar de planejamento e de gestão patrimonial.
Quando se deixa um bem público chegar ao ponto em que as fotografias mostram, o Município não economiza: transfere para o futuro uma conta potencialmente maior. E quem paga essa conta? O contribuinte.
Por isso, a pergunta é inevitável:
Cadê o compromisso concreto com os recursos públicos?
Porque dinheiro público não deve servir apenas para inaugurar, ornamentar, iluminar e produzir eventos.
Também precisa servir para conservar aquilo que já foi construído.
O Coreto esteve exposto durante diversos eventos que movimentaram a cidade e atraíram visitantes — Festa de São João, Milharal, Festa do Asilo, show de Gian & Giovani, Moto Rock, Encontro de Folia de Reis, entre outros.
O espaço é utilizado. É visto. É fotografado. É cartão-postal.
E justamente por isso a situação atual se torna ainda mais constrangedora.
Agora, neste domingo de eleições, quantos arceburguenses passaram pelo Colégio Arceburguense e, ao atravessar a Praça da Matriz, se depararam com o descaso com o Coreto Municipal? No coração da cidade, o patrimônio permanece exposto aos olhos de todos — inclusive de quem chega de fora — com sinais visíveis de deterioração.
Não é uma questão de estética. É uma questão de gestão, planejamento, conservação do patrimônio e responsabilidade com o dinheiro público. E não adianta, depois da cobrança, aparecer o argumento de que “a obra está prevista” pois previsão futura não apaga a realidade presente.
Se o bem apresenta hoje esse nível de deterioração, a pergunta continua sendo: onde esteve a manutenção regular durante os últimos tempos?
Manutenção preventiva existe justamente para impedir que o patrimônio chegue ao ponto de precisar de uma intervenção maior para evitar que o contribuinte (que já suporta um IPTU caríssimo) pague uma conta que poderia ter sido menor.
Isso não é planejamento patrimonial. É administração reativa com maquiagem e purpurina.
E há algo particularmente simbólico nisso tudo:
o Coreto foi tombado para ser protegido. Não para ser simplesmente lembrado quando chega a hora de elaborar um relatório de patrimônio cultural. A própria Prefeitura informa que o tombamento é um mecanismo de proteção destinado a garantir cuidados aos bens históricos.
Então é preciso cobrar coerência entre o que está escrito no papel e aquilo que existe na Praça Matriz.
Se o patrimônio tombado localizado bem no centro da cidade, diante da Praça da Matriz, recebe esse tratamento, f**a uma pergunta incômoda:
Como estarão os bens públicos que não estão no centro dos olhos de todo mundo? A vergonhosa quadra esportiva do bairro Santa Terezinha é um exemplo disso.
Causa, no mínimo, perplexidade que, enquanto o Coreto Municipal — um bem histórico tombado e localizado no coração da cidade — se encontra no estado de deterioração retratado nas imagens, a Prefeita Municipal tenha recentemente divulgado visitas a cidades históricas de Minas Gerais, apresentando a iniciativa como demonstração de compromisso com a cultura, a história e os valores mineiros.
É difícil falar em compromisso com o patrimônio histórico de Minas Gerais enquanto o patrimônio histórico de Arceburgo pede socorro bem diante dos nossos olhos.
Porque cultura não se defende apenas em viagens, fotografias e discursos. Defende-se, sobretudo, cuidando concretamente do patrimônio que está sob a responsabilidade da própria Prefeitura.
É preciso demonstrar compromisso concreto com cada real que pertence ao cidadão. Porque gestão pública não pode ser apenas maquiagem, evento e purpurina.