20/05/2026
𝐃𝐢𝐬𝐜𝐮𝐫𝐬𝐨 𝐝𝐚 𝐁𝐚𝐧𝐜𝐚𝐝𝐚 𝐝𝐨 𝐌𝐩𝐃 𝐧𝐚 𝐀𝐬𝐬𝐞𝐦𝐛𝐥𝐞𝐢𝐚 𝐌𝐮𝐧𝐢𝐜𝐢𝐩𝐚𝐥 𝐝𝐚 𝐏𝐫𝐚𝐢𝐚 𝐩𝐨𝐫 𝐨𝐜𝐚𝐬𝐢𝐚̃𝐨 𝐝𝐚 𝐒𝐞𝐬𝐬𝐚̃𝐨 𝐒𝐨𝐥𝐞𝐧𝐞 𝐂𝐨𝐦𝐞𝐦𝐨𝐫𝐚𝐭𝐢𝐯𝐚 𝐝𝐨 𝟓𝟎.º 𝐀𝐧𝐢𝐯𝐞𝐫𝐬𝐚́𝐫𝐢𝐨 𝐝𝐨 𝐃𝐢𝐚 𝐝𝐨 𝐌𝐮𝐧𝐢𝐜𝐢́𝐩𝐢𝐨 𝐝𝐚 𝐏𝐫𝐚𝐢𝐚
Sua Excelência o Senhor Presidente da República;
Sua Excelência o Senhora Presidente do Supremo Tribunal de Justiça;
Senhoras e Senhores Deputados da Assembleia Nacional;
Sua Excelência o Senhor Presidente do Tribunal de Contas;
Sua Excelência o Senhor Presidente do Conselho Superior da Magistratura Judicial;
Senhoras e Senhores Presidentes das Câmaras Municipais;
Senhoras e Senhores Presidentes das Assembleias Municipais;
Sua Eminência Reverendíssima, o Senhor Cardeal de Cabo Verde;
Sua Excelência Reverendíssima, o Senhor Bispo da Diocese de Santiago;
Sua Excelência o Senhor Chefe da Casa Civil do Presidente da República;
Senhoras e Senhores Vereadores das Câmaras Municipais;
Senhoras e Senhores Deputados Municipais;
Senhor Secretário-Geral da Assembleia Nacional;
Senhor Diretor Nacional da Polícia Nacional;
Membros do Corpo Diplomático acreditado em Cabo Verde;
Senhor Comandante-Major da 3.ª Região Militar;
Magníficos Reitores das Universidades Cabo-verdianas;
Senhoras e Senhores Bastonários das Ordens Profissionais;
Senhoras e Senhores Presidentes dos Institutos Públicos e Equiparados;
Senhoras e Senhores Diretores de Serviço;
Distintos Convidados;
Minhas Senhoras e Meus Senhores.
Celebramos hoje os 50 anos do Dia do Município da Praia.
Cinco décadas de memória, resistência, construção coletiva e esperança.
Celebramos uma cidade que não nasceu apenas de decretos, nem de fronteiras administrativas. A Praia nasceu do encontro entre o mar e a coragem. Entre a seca e a persistência. Entre a pedra e o sonho. É uma cidade feita de homens e mulheres simples, de mães vendedeiras, de pescadores, de estudantes, de trabalhadores anónimos que, todos os dias, carregam nos ombros o peso e a dignidade desta Capital.
E talvez por isso faça hoje ainda mais sentido estarmos reunidos neste Auditório Nacional Jorge Barbosa, sob o nome de um dos maiores filhos da literatura cabo-verdiana, um homem que soube transformar a alma destas ilhas em poesia universal.
Jorge Barbosa, nascido na ilha de Santiago, em 1902, funcionário público por profissão e poeta por destino, foi um dos rostos maiores do movimento Claridade. E no seu inesquecível poema Prelúdio, escreveu palavras que parecem atravessar os séculos para dialogar connosco nesta cerimónia:
“Quando o descobridor chegou à primeira ilha
nem homens nus
nem mulheres nuas
espreitando
inocentes e medrosos
detrás da vegetação.
Nem setas venenosas vindas do ar
nem gritos de alarme e de guerra
ecoando pelos montes.
Havia somente
as aves de rapina
de garras afiadas
as aves marítimas
de vôo largo
as aves canoras
assobiando inéditas melodias.
E a vegetação
cujas sementes vieram presas
nas asas dos pássaros
ao serem arrastados para cá
pelas fúrias dos temporais.
Quando o descobridor chegou
e saltou da proa do escaler varado na praia
enterrando
o pé direito na areia molhada
e se persignou
receoso ainda e surpreso
pensa n´El-Rei
nessa hora então
nessa hora inicial
começou a cumprir-se
este destino ainda de todos nós.” Fim da citação!
Este destino ainda de todos nós.
Talvez nenhuma frase explique tão profundamente a Cidade da Praia. Porque a Praia nunca foi apenas um espaço geográfico. A Praia é destino coletivo. É responsabilidade histórica. É lugar de encontros e desencontros, de promessas e desafios, de esperança e cobrança.
Hoje, ao assinalarmos esta data histórica, prestamos homenagem aos jovens que, a 19 de Maio de 1974, ousaram erguer a voz contra a opressão e o medo. Jovens que transformaram indignação em coragem. Jovens que escreveram, com o risco da própria vida, uma das páginas mais simbólicas da luta pela liberdade em Cabo Verde.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Cinco décadas depois, a Praia continua a ser o coração político, económico, cultural e humano de Cabo Verde. É aqui que o país pulsa com maior intensidade. É aqui que chegam diariamente milhares de sonhos vindos de todas as ilhas. É aqui que a juventude procura oportunidades. É aqui que o país procura respostas.
Mas também é aqui que as contradições nacionais se tornam mais visíveis.
A Praia cresceu. Cresceu muito. Mas nem sempre cresceu com equilíbrio, planeamento e justiça social. Há bairros que continuam esquecidos. Há famílias que ainda vivem sem saneamento digno, sem habitação condigna e sem oportunidades reais. Há jovens talentosos que convivem diariamente com o desemprego, a insegurança e a falta de perspetivas.
E é impossível celebrar plenamente esta cidade sem reconhecer, com humildade e frontalidade, que a Praia merece mais.
Merece mais organização urbana.
Merece mais visão estratégica.
Merece mais diálogo institucional.
Merece mais investimentos estruturantes.
Merece mais proximidade política.
Merece mais respeito pelos seus munícipes.
Porque uma Capital não pode viver apenas de discursos. Uma Capital precisa de rumo. Precisa de liderança. Precisa de ambição coletiva.
Enquanto Bancada do MpD na Assembleia Municipal da Praia, reafirmamos hoje o nosso compromisso com uma oposição responsável, firme nas convicções, mas construtiva nas soluções. Não fazemos política do ruído. Não fazemos política do ressentimento. Fazemos política com sentido de Estado, espírito democrático e profundo amor por esta cidade.
Sabemos reconhecer aquilo que foi feito. Mas temos igualmente o dever de alertar para aquilo que continua por fazer.
A Praia não pode habituar-se à resignação.
A Praia não pode aceitar a estagnação como destino.
A Praia não pode perder a sua capacidade de sonhar grande.
Queremos uma cidade mais inclusiva, mais segura e mais humana.
Uma cidade onde os bairros periféricos tenham as mesmas oportunidades do centro urbano.
Uma cidade onde a juventude encontre caminhos e não muros.
Uma cidade onde a cultura seja valorizada como instrumento de identidade e desenvolvimento.
Uma cidade limpa, organizada, resiliente e preparada para os desafios ambientais e tecnológicos do futuro.
Queremos uma Praia onde o desenvolvimento não seja privilégio de alguns, mas património de todos.
E para isso, precisamos de uma nova cultura política. Uma cultura de concertação, de responsabilidade e de compromisso institucional entre o poder local e o poder central, acima das divergências partidárias. Porque os problemas da Praia não têm cor política. Têm urgência social.
Caros Munícipes,
Há cidades que vivem apenas de edifícios. A Praia vive sobretudo das pessoas.
Vive da força das mulheres dos mercados.
Do sacrifício silencioso das mães.
Da criatividade da juventude.
Dos artistas, professores, taxistas, vendedores ambulantes, pescadores, funcionários públicos, empreendedores e trabalhadores que, todos os dias, constroem esta cidade com dignidade anónima.
São eles os verdadeiros arquitetos da Praia.
E talvez seja precisamente isso que Jorge Barbosa quis eternizar: esta capacidade cabo-verdiana de transformar escassez em resistência e solidão em comunidade.
Hoje, cinquenta anos depois da institucionalização do Dia do Município, devemos renovar esse pacto coletivo com a Cidade da Praia. Um pacto baseado na memória, mas orientado para o futuro.
Que os próximos cinquenta anos sejam anos de maior coesão social.
De maior mobilidade urbana.
De melhor saneamento.
De mais habitação.
De mais cultura.
De mais oportunidades para os jovens.
De maior dignidade para os idosos.
De mais esperança para as famílias.
Porque amar a Praia não é apenas elogiá-la nos dias festivos. Amar a Praia é cuidar dela diariamente. É criticá-la quando necessário. É defendê-la quando preciso. É acreditar que ela pode ser muito maior do que aquilo que hoje é.
E nós acreditamos.
Acreditamos numa Praia moderna, atlântica, criativa e cosmopolita.
Numa Capital que inspire Cabo Verde inteiro.
Numa cidade reconciliada consigo mesma.
Numa cidade que volte a orgulhar plenamente os seus filhos, no país e na diáspora.
Permitam-me terminar regressando ao poeta.
Quando Jorge Barbosa escreveu que “começou a cumprir-se este destino ainda de todos nós”, talvez estivesse também a lembrar-nos que nenhuma cidade está acabada. Nenhum destino está concluído. Cada geração recebe uma responsabilidade histórica: continuar a construir.
Hoje, essa responsabilidade é nossa.
Que saibamos honrar o passado sem ficar prisioneiros dele.
Que saibamos enfrentar o presente sem medo.
E que saibamos construir, juntos, uma Praia mais justa, mais bela e mais digna para todos.
Bem-haja o Dia do Município da Praia.
Bem-hajam os Praienses.
Viva a Cidade da Praia!
Viva Cabo Verde!