08/07/2024
Vouzela Lenda ...
O mistério da Caninha
O cenário desta lenda é Fataunços, em Vouzela. Estamos no Couto de Alafões e esse homem velho e feio é El Haturra, um mouro que continuou fiel á sua fé, embora conviva com a corte Portuguesa. É El Haturra e tem a sua mania, que consiste em andar sempre com a sua caninha seca, já motivo de risota dos demais. Mas El Haturra não se importa, pois é algo bonacheirão o seu feitio. Mas um dia o seu íntimo amigo Álvaro, Português, chamou-lhe a atenção exactamente para isso. El Haturra, a principio zangou-se, mas, como era mesmo muito amigo de Álvaro, contou-lhe: --- Meu caro, quero que saibas um segredo que na minha família só tem passado de pais para filhos ou de tios a sobrinhos. Trata-se do segredo desta varinha, que é mágica. Não troces, Álvaro, isto é mesmo um objecto de família. Este foi o bastão derradeiro do comando que usou o meu antepassado Alafum na célebre retirada dos agarenos. E f**as, desde já, a saber, que quando esta vara, que bem vês velha e ressequida pelo tempo, conseguir reverdecer é o sinal sagrado. O sinal sagrado, meu caro Álvaro, do encontro de dois descendentes de Cid Alafum ...estás a ver porque nunca abandono a minha varinha? Álvaro estava admirado, e alguma coisa reticente. Mas El Haturra explicou-lhe que quando se encontrasse com uma descendente del Alafum, tornar-se-iam ambos herdeiros universais de quanto havia pertencido ao ilustre antepassado comum. Importava era descobrirem-se. E em muitas tardes de passeio, os dois amigos conversaram sobre este tema, a ponto de Álvaro acreditar. E certo dia ambos viram passar duas mouras. Uma princesa e sua aia. E reverdeceu a varinha, tendo El Haturra reconhecido a aia como sua parente. Seguiram-nas até á corte de Portugal e operou-se então um fenómeno: El Haturra rejuvenesceu e, assim, pôde ir á vontade ao encontro da sua prima, por quem se apaixonara. E esta amou-o também naquele mesmo instante. Entenderam casar, pelo que estabeleceram contactos com a corte Portuguesa. O Rei concordou, e ofereceu-lhes todo o território que havia pertencido ao ascendente comum. Mas com uma condição: El Haturra seria baptizado. E ele disse que não o faria. No entanto, ele e a prima, estavam apaixonadíssimos, o Rei estava inflexível e a noiva censurava o que julgava ser menos amar por parte do noivo. El Haturra, entre a espada e a parede aceitou baptizar-se. Porém, esquecia alguma coisa. Naturalmente, antes da cerimónia do casamento, El Haturra devia baptizar-se, e para isso teve de deixar a sua preciosa caninha fora da igreja. E aconteceu algo que ele não esperava, e muito menos a noiva. Ao receber os óleos de baptismo, toda a sua juventude desapareceu, regressando ao velho que realmente era. É que, conforme a tradição, a magia da caninha só se mantinha se os dois descendentes de Cid Alafum obedecessem a lei de Mafamede! A noiva desmaiou, e El Haturra desapareceu para não ser mais visto!...