05/10/2026
A Democracia e a República, uma história com futuro
Numa altura em que celebramos os 50 anos do poder local democrático e das primeiras eleições autárquicas, é impossível contornar o significado profundo da Implantação da República em Portugal, a começar pelo papel pioneiro do município e da Câmara Municipal de Lisboa.
Foi no âmbito autárquico que a Implantação da República começou a germinar: em novembro de 1908, a eleição de uma maioria de vereadores republicanos para a Câmara de Lisboa colocou, pela primeira vez na prática, a noção de um governo coletivo eleito pelo povo, constituindo um momento de viragem política e o verdadeiro prenúncio do 5 de Outubro de 1910.
Neste processo, é fundamental valorizar o papel crucial que ilustres figuras republicanas ligadas ao distrito de Portalegre desempenharam:
· Eusébio Leão: Nascido no Gavião, foi a figura histórica que proferiu e leu a proclamação da República a 5 de outubro de 1910 na varanda dos Paços do Concelho de Lisboa.
· Adelaide Cabete: Sendo natural de Elvas, 1867, médica, destacada republicana e lutadora pelos direitos das mulheres.
· José Carrilho Videira: Nasceu em Marvão (1845), estudou no Liceu de Portalegre e iniciou aí a sua colaboração na imprensa, na Gazeta de Portalegre. Foi um dos grandes precursores do republicanismo português numa época em que defender a República era ainda um ato politicamente marginal e de enorme risco.
· João Camoesas: Natural de Elvas (1887), proeminente médico, pedagogo e político republicano, que viria a ser Ministro da Instrução Pública.
· Emílio Costa: Natural de Portalegre. Professor, jornalista e político, foi o dinamizador do jornal O Intransigente (fundado em Portalegre em 1908), um periódico crucial na republicanização do distrito e da região, com um percurso ligado também ao movimento socialista e libertário.
São estas figuras, entre outras, e estes valores que hoje nos convidam à reflexão sobre a importância da República no contexto democrático atual.
Num contexto de elevada fragmentação política e social, muitos de nós têm de encontrar na República a âncora necessária para colocar a relevância da Democracia em primeiro lugar. Isso foi, de alguma forma, visível nas recentes eleições para a Presidência da República, onde foi mais importante colocar em evidência aquilo que nos unia do que aquilo que nos separava.
Este é um convite direto à reflexão sobre a importância da união e da valorização dos partidos democráticos em detrimento de soluções extremistas e populistas.
Também na forma como o Estado se organiza no território podemos ver as principais correntes de pensamento e as diferenças políticas. Por isso mesmo, torna-se essencial valorizar o poder local democrático e a proximidade, que são de inspiração genuinamente republicana, em detrimento de visões centralistas ou meramente horizontais.
A República teve na questão da instrução primária um dos seus maiores alicerces históricos, princípio que hoje se projeta na universalização e democratização do ensino em todos os graus e anos de escolaridade.
Do mesmo modo, a expansão da ferrovia surge como um instrumento político e de transformação territorial fundamental durante a Primeira República, com especial impacto no distrito de Portalegre e no Alto Alentejo. A ligação entre o caminho de ferro, o republicanismo e a modernização demonstra como as infraestruturas eram vistas como garante do desenvolvimento económico e da coesão territorial.
Hoje, enfrentamos novas bandeiras que exigem a mesma afirmação dos princípios republicanos:
· HABITAÇÃO: É premente defender políticas de equilíbrio e justiça social em vez de soluções que privilegiam os grandes proprietários em detrimento dos inquilinos, garantindo humanização num momento em que os mais frágeis e os que menos ganham precisam de ter acesso garantido a uma habitação condigna;
· SAÚDE: Perante o desmantelamento progressivo de estruturas vitais do Serviço Nacional de Saúde, que coloca em risco a acessibilidade universal, é urgente reafirmar o papel do Estado social;
· IGUALDADE: Lembrar os valores republicanos é colocar no centro do debate a igualdade entre todos, seja do ponto vista social, económico ou territorial.
Por tudo isto, silenciar a implantação da República é silenciar a necessidade de evocar e defender os próprios princípios democráticos.
Evocar, hoje, a República, é exaltar a estabilidade, a igualdade e a justiça social - conquistas imperativas nos domínios da Educação, da Saúde, do apoio aos mais idosos e, acima de tudo, da equidade territorial em todo o país.
Reafirmamos hoje este compromisso, lembrando o grito vibrante lançado por um ilustre cidadão do Alto Alentejo a partir da varanda da Câmara Municipal de Lisboa, a 5 de outubro de 1910: Viva a República!
Saudações Socialistas,
Tiago Fernandes Teotónio Pereira
Presidente da Federação Distrital de Portalegre