06/08/2026
Assinem a carta de Belo Horizonte
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Carta de Belo Horizonte / Belo Horizonte Charter / Carta de Belo Horizonte
[PORTUGUÊS]
Os Estudos Culturais ocupam uma posição simultaneamente reconhecida e sub-representada nas diferentes regiões do mundo. Por sua natureza transversal, permitem analisar os fundamentos simbólicos e materiais das sociedades contemporâneas e questionar práticas naturalizadas que organizam relações de poder.
Se a interdisciplinaridade é muitas vezes reduzida a uma combinação administrativa de áreas sem reconhecimento da sua especificidade epistemológica, os EC propõem dispositivos teóricos e metodológicos capazes de cruzar diferentes epistemologias e articular saberes situados, constituindo de fato um campo de pensamento plural sem perder a profundidade e complexidade exigidas pelas questões científicas e políticas dos tempos atuais. É por isso que são reconhecidos como uma das forças críticas do pensamento contemporâneo. Talvez pela mesma razão, permaneçam sub-representados quando se fala de financiamento científico.
Nos dias que correm, um pouco por toda parte, a ciência está submetida a lógicas de avaliação que correspondem aos modos neoliberais de organizar o mundo, ou seja, tem sido tratada como parte de uma cadeia produtiva de bens ou dispositivos com valor de mercado. Tais lógicas penalizam os campos científicos das ciências sociais e humanas, da filosofia e das artes. Elas encerram as universidades num modelo de produção calcado em métricas e índices incompatíveis com o pensamento criativo e crítico comum a essas áreas.
A predominância de métricas bibliométricas, indexação internacional e publicação em inglês desfavorece os livros, as línguas não anglófonas e as tradições acadêmicas situadas. A preservação de um conhecimento plural e culturalmente diverso depende de formas de avaliação que reconheçam as especificidades das áreas de conhecimento e valorizem resultados não quantificáveis pela lógica do produtivismo, tais como o livro, as curadorias, as intervenções culturais, as mediações e produções artístico-investigativas.
A competição pelos financiamentos, o tempo reduzido e a precarização do trabalho científico limitam estudos que necessitam de duração, densidade histórica e densidade contextual. Passar do conhecimento crítico para recomendações concretas exige investigação sólida e metodologicamente rigorosa. Também exige tempo de maturação, negociação e mediações equilibradas com partícipes das pesquisas de campo. A criatividade e a inovação tornam-se muitas vezes instrumentos de legitimação de uma ciência neoliberal e tecnocapitalista orientada pelo impacto imediato e pelos interesses das grandes empresas transcontinentais e não mais pela sua capacidade de contribuir para que as instituições de pesquisa científica possam efetivamente participar da criação e disseminação de modos mais justos de existir e coexistir para todas as pessoas ao redor do mundo.
Neste momento em que vemos graves ameaças à democracia e o crescimento de ideologias e práticas violentas que atacam e suprimem os direitos de grupos historicamente marcados pela colonialidade, racismo, misoginia, transfobia, homofobia, xenofobia, políticas científicas oficiais favorecem práticas correspondentes a uma instrumentalização da pesquisa por interesses do capital transcontinental. Não se trata de processos isolados, mas de elementos de uma mesma forma de capturar e escravizar sensibilidades, corpos e pensamentos.
Diante disso, como pesquisadores do campo dos Estudos Culturais e de áreas próximas que compartilham dos mesmos ideais e princípios no que diz respeito ao papel emancipador e transformador do conhecimento, não podemos deixar de externar nosso desejo coletivo de que as políticas de financiamento da ciência por todo o planeta tornem-se mais e mais inclusivas e democráticas e os modelos avaliativos mais e mais capazes de computar resultados não quantificáveis pelas métricas neoliberais, mas, sim, perceptíveis por instrumentos pensados para compreender impactos correspondentes a modos de pesquisar que não reduzam o mundo a um campo de extração e exploração.