23/10/2025
O EMPREGO é caminho mais seguro para sair da pobreza. Concorda?
👉 Leia o artigo do Director do Banco Mundial em Moçambique, Fily Sissoko, e junte-se à conversa sobre o futuro do emprego no país.
"Numa manhã recente em Maputo, passei por um grupo de jovens que consertavam chaleiras debaixo de uma árvore. Não tinham loja, formação formal ou rendimento fixo — mas tinham clientes e determinação. A poucos passos, uma jovem vendia tomates, limões e crédito enquanto cuidava de uma criança. Estas cenas quotidianas reflectem o espírito dos microempreendedores moçambicanos — resilientes e cheios de potencial. Contudo, apesar da sua força de vontade, muitos permanecem em modo de subsistência, sem oportunidades para prosperar.
Todos os anos, cerca de meio milhão de jovens moçambicanos entram no mercado de trabalho. Porém, apenas cerca de 25 mil empregos formais são criados. A maioria trabalha na agricultura de subsistência ou em empregos informais que oferecem pouca segurança e baixos rendimentos. Estas actividades mantêm-nos ocupados, mas raramente lhes permitem sair da pobreza.
Ao assinalarmos recentemente o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, é essencial reconhecer que o emprego é o caminho mais poderoso para sair da pobreza. Integrá-lo como pilar central das estratégias de desenvolvimento não é apenas uma decisão económica inteligente, mas um imperativo moral.
Moçambique tem tudo para prosperar. Com a sua localização estratégica no Oceano Índico e proximidade de países vizinhos sem litoral, está bem posicionado para se tornar um centro regional de comércio, energia e turismo. É rico em recursos naturais, desde vastas terras aráveis e depósitos minerais, até uma das maiores reservas de gás natural do mundo, e possui uma população jovem pronta para impulsionar a economia.
A ambição de Moçambique em traçar um novo caminho de desenvolvimento oferece uma janela de oportunidade para enfrentar constrangimentos estruturais antigos e criar mais e melhores empregos, especialmente para os jovens.
As aspirações do país ecoam a experiência do Vietname, um país que demonstrou como reformas estratégicas e uma implementação eficaz de políticas podem transformar uma economia. Em 1987, tanto o Vietname como Moçambique eram classificados como economias de baixo rendimento com níveis de rendimento per capita semelhantes. Desde então, os seus caminhos divergiram de forma acentuada.
Nas últimas três décadas, o Vietname manteve um crescimento económico anual de quase 7 por cento, elevando os padrões de vida, multiplicando por seis o rendimento médio e reduzindo a pobreza de quase 60 por cento em 1993 para menos de 3 por cento em 2020. Esta transformação foi impulsionada por investimentos estratégicos em capital humano, um perfil demográfico favorável, elevada poupança e investimento interno, e reformas ousadas na agricultura, comércio e ambiente empresarial que desbloquearam o potencial do sector privado e integraram o país nos mercados globais.
Moçambique pode inspirar-se nesta trajectória. Alinhar reformas políticas com objectivos de desenvolvimento a longo prazo, investir nas pessoas e fomentar um ambiente propício ao crescimento inclusivo são essenciais. Um passo crítico é garantir a estabilidade macrofiscal para restaurar a confiança dos investidores e lançar as bases para um desenvolvimento sustentável.
Mas talvez a lição mais importante do Vietname e de outras histórias de sucesso asiáticas seja o poder da execução. A implementação não é um pormenor burocrático; é a política. É o motor que transforma a visão em resultados. Sem uma implementação eficaz, mesmo as estratégias melhor desenhadas permanecerão meras aspirações.
Pela minha própria experiência, aprendi que a implementação bem-sucedida depende de cinco factores: liderança forte, uma visão de longo prazo com objectivos claros, uma equipa de implementação dedicada e qualificada, sistemas de monitoria robustos e envolvimento regular com os cidadãos e o sector privado.
Em linha com as prioridades do novo governo, o Grupo Banco Mundial está a desenvolver um novo Quadro de Parceria com o País para apoiar o desenvolvimento de Moçambique nos próximos cinco anos. Esta estratégia visa desbloquear o poder transformador dos corredores económicos do país através de:
1. Apoio à criação de empregos em sectores de elevado potencial — particularmente energia, agro-indústria e turismo.
2. Reforço dos facilitadores do capital privado — através de políticas que assegurem a estabilidade macro-fiscal, resolvam estrangulamentos de infra-estruturas, melhorem o ambiente empresarial e invistam numa força de trabalho mais saudável e qualificada.
3. Abordagem dos factores de fragilidade — para garantir que o crescimento seja inclusivo e sustentável.
Este é o momento de Moçambique — especialmente para os seus jovens e mulheres. É tempo de desenvolver competências, aproveitar as oportunidades dos investimentos energéticos em larga escala e forjar um novo pacto entre o governo, a sociedade civil, o sector privado e os parceiros de desenvolvimento.
No centro deste pacto deve estar um compromisso partilhado com uma governação económica mais forte, que será a base do sucesso de Moçambique."
-Por Fily Sissoko, Director de Divisão do Banco Mundial para Moçambique, Madagáscar, Maurícias, Comores e Seicheles