23/10/2026
FIAMA, «DO MAR»
Damos continuidade à série ‘O Mar na Poesia Portuguesa dos Séculos XIX e XX’ com a publicação do quadragésimo terceiro poema, da autoria de Fiama Hasse Pais Brandão, bem como uma nota sobre a autora e um comentário inéditos, por Rami Morais.
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DO MAR
Aqueles de um país costeiro, há séculos,
contêm no tórax a grandeza
sonora das marés vivas.
Em simples forma de barco,
as palmas das mãos. Os cabelos são banais
como algas finas. O mar
está em suas vidas de tal modo
que os embebe dos vapores do sal.
Não é fácil amá-los
de um amor igual à
benignidade do mar.
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FONTES: Poema – Brandão, Fiama Hasse Pais (2006). «Obra Breve: Poesia Reunida». Lisboa: Assírio & Alvim. 711. | Imagem – Google Imagens
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NOTA SOBRE A AUTORA
Fiama Hasse Pais Brandão (Lisboa, 15 de agosto de 1938 — 19 de janeiro de 2007).
Poetisa, tradutora e investigadora.
Frequentou a St. Julian’s School e, mais tarde, o curso de licenciatura em Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi casada com o poeta Gastão Cruz, de quem teve dois filhos.
Realizou investigação científica nos domínios da linguística, da história e da literatura portuguesas (tendo escrito, entre outros, o ensaio «O Labirinto Camoniano e Outros Labirintos» sobre a influência cabalística em diversos autores nacionais dos séculos XVI a XVIII), traduziu inúmeras obras de autores de renome (como sejam Updike, Brecht, Artaud e Tchekov), colaborou em periódicos (nomeadamente, «Seara Nova», «Cadernos do Meio-Dia», «Brotéria», «Vértice», «Colóquio/Letras», «Relâmpago», «A Phala», entre outros), e dedicou-se ao teatro (fez formação na área, foi crítica e autora de vários textos dramáticos — o primeiro dos quais, «Os Chapéus de Chuva», de 1961, recebeu o Prémio Revelação de Teatro da S.P.E. — e fundou o grupo ‘Teatro Hoje’ em 1974, cuja primeira peça, «Mariana Pineda» de Federico Garcia Lorca, encenou).
A sua obra reparte-se pelo teatro, pela ficção e pela poesia. Estreou-se com «Em Cada Pedra Um Voo Imóvel» (1957), por que recebeu o Prémio Adolfo Casais Monteiro. Foi uma das autoras que mais se destacou no âmbito do movimento «Poesia 61», que revolucionou a poesia da década de 60 através do seu experimentalismo (patente na preocupação com a palavra e na busca por uma expressão depurada e não discursiva, em reação ao cansaço e esgotamento verificado relativamente à produção do decénio anterior) e em cuja revista publicou a ‘plaquette’ «Morfismos». Ao longo da sua carreira, viria a ser contemplada com várias distinções, nomeadamente os Prémios P.E.N. Clube Português de Poesia e Novelística, o Grande Prémio de Poesia APE/CTT e o Prémio da Crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários.
A sua exposição à poesia aconteceu pela mão de uma avó, com quem ‘poetava’. Foi essa familiar quem lhe ofereceu o primeiro livro de versos que leu aos 14 ou 15 anos, «Coral» de Sophia, que descreveu como «uma maravilha, foi uma sorte». Esta avó foi responsável por estimular a grande sensibilidade cultural e literária de Fiama, a qual se refletiu poeticamente num forte diálogo com a tradição artística (um dos seus livros, de 1976, intitula-se «Homenagem à literatura»), o qual permite identificar na sua obra poética, simultaneamente, traços de classicismo e de vanguarda. Os seus poemas, abordando temas como a natureza e a cultura e caracterizando-se por um certo pendor gnóstico e uma feminilidade subtil, visam expressar com exatidão a sua visão única do mundo, a qual exigiu a invenção de uma língua/expressão igualmente singular, que se afasta da convencionalidade, mercê da desconstrução das articulações discursivas e da metaforização. Esta ‘desfamiliarização’ da linguagem, cultivada de forma extremada numa fase inicial, menos popular entre os leitores, acabou por dar lugar a uma cada vez mais notória nudez nas últimas obras, que colheram o elogio da crítica.
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COMENTÁRIO AO POEMA
O poema «DO MAR» constitui parte integrante da coletânea poética «As Fábulas», dado à estampa em 2002, e versa sobre a cultura marítima de um povo (que se presume ser o português).
Formalmente, estamos perante um poema constituído por um total de onze versos, distribuídos por duas estrofes: a primeira, mais extensa, uma oitava; a segunda, mais breve, um terceto. Os versos apresentam uma métrica irregular, com predomínio de versos decassilábicos e outros de menor extensão, o que contribui para uma leitura fluida, sem rigidez formal e evocativa do movimento ondulatório do mar. Do mesmo modo, não se observa qualquer esquema rimático, reforçando a ideia de submissão da forma ao conteúdo.
Na primeira parte, o poema descreve um povo que vive, há séculos, em íntima ligação com o mar, ao ponto de o trazerem dentro de si. Essa fusão é expressa através de uma imagem poética complexa — “contêm no tórax a grandeza / sonora das marés vivas” — que combina elementos como a hipálage e a sinestesia, transmitindo de forma sensorial e intensa a presença interior do mar (veja-se como a passagem «Aqueles de um país costeiro» pode ser entendida como uma antonomásia implícita para nomear os portugueses): «Aqueles de um país costeiro, há séculos, / contêm no tórax a grandeza / sonora das marés vivas.» A comparação “Os cabelos são banais / como algas finas” reforça essa identificação física com o meio marinho, assim como a referência às mãos em forma de barco: «Em simples forma de barco, / as palmas das mãos. Os cabelos são banais / como algas finas.» Não são apenas estas figuras de estilo que contribuem para a construção do sentido, mas também a escolha lexical: palavras como “marés”, “barco”, “algas”, “mar” e “sal” pertencem todas ao campo semântico marinho, reforçando a ideia de que o mar não é apenas um cenário, mas uma dimensão essencial e constitutiva da identidade deste povo: «O mar / está em suas vidas de tal modo / que os embebe dos vapores do sal.»
Na segunda parte, o sujeito poético reconhece que “não é fácil amá-los / de um amor igual à / benignidade do mar”, introduzindo uma forte ambiguidade sugestiva. Uma leitura possível, tendo em conta a forte ligação entre o povo e o oceano descrita na primeira parte, será a do reconhecimento da impossibilidade de igualar a intensidade da relação emocional deste povo com o mar que os envolve e integra — uma ligação classificável como amor (veja-se como a economia e a simplicidade da passagem parecem refletir a serenidade do mar): «Não é fácil amá-los / de um amor igual à / benignidade do mar.»
Concluímos, assim, que no poema «DO MAR», de Fiama Hasse Pais Brandão, se constrói uma visão profundamente simbólica da relação entre o mar e o povo português, sugerindo uma fusão quase orgânica e afetiva entre ambos. O mar surge não apenas como cenário ou fonte de sobrevivência, mas como marca fundadora da identidade, inscrita no corpo, na história e na sensibilidade coletiva. Essa ligação é apresentada como absoluta e inquebrável — ao ponto de tornar impossível a qualquer homem ou mulher amar este povo com a mesma entrega e benignidade do mar.
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P.S.: Dada a periodicidade mensal das nossas publicações, contamos regressar no dia 20 de novembro, sexta-feira. Até lá!
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R. M.