21/10/2026
ORDENANÇAS
As ordenanças constituíram a terceira linha do Exército Português e desempenharam um papel fundamental como força de mobilização popular e resistência territorial durante a Guerra Peninsular (1807–1814). Esta instituição de defesa, criada originalmente pelo rei D. Sebastião em 1570, funcionava como um sistema de alistamento obrigatório que abrangia todos os homens válidos entre os 16 e os 60 anos que não estivessem integrados no exército regular ou nas milícias. Organizadas territorialmente por concelhos e vilas, as companhias de ordenança eram formadas por cidadãos comuns, como camponeses e artesãos, que não recebiam fardamento nem salário do Estado. Como o arsenal militar regular estava reservado para a primeira linha, os homens das ordenanças viam-se obrigados a combater maioritariamente com armamento próprio, recorrendo a armas de fogo civis, armas brancas tradicionais e “armas de fortuna” improvisadas a partir de ferramentas agrícolas.
O armamento destas milícias refletia a sua origem popular e rural. Entre as poucas armas de fogo disponíveis destacavam-se as antigas espingardas de caça de pederneira e os bacamartes (espingardas de cano curto e alargado, ideais para disparar metralha à queima-roupa em emboscadas). No entanto, devido à escassez crónica de pólvora e chumbo, a esmagadora maioria do contingente dependia de armas brancas e de hastes. O pique e o chuço (uma lança artesanal curta com ponta de ferro faceada) eram as armas mais comuns, fabricadas em massa por ferreiros locais. Na ausência destas, os camponeses adaptavam os seus instrumentos de trabalho diário em terríveis armas cortantes: foices roçadoras, sachos, machados de corte, gadanhas invertidas e podoas transformavam-se rapidamente em armas de haste improvisadas, capazes de derrubar um cavalo ou perfurar a farda de um soldado francês em combates de proximidade.
A liderança destas companhias cabia ao capitão-mor, uma figura recrutada entre a fidalguia local ou os grandes proprietários de terras. Com a fuga da corte portuguesa para o Brasil e o colapso de muitas instituições do governo central, estes homens assumiram um poder quase absoluto nas suas regiões. Tornaram-se os únicos rostos de autoridade que restavam às populações, competindo-lhes organizar a resistência, decretar prisões de suspeitos de colaboracionismo e mobilizar os homens para o combate. Embora muitos tenham demonstrado um heroísmo notável na defesa dos seus concelhos, a sua atuação nem sempre foi consensual, registando-se por vezes abusos de poder e o uso da autoridade para o ajuste de contas pessoais num clima de quase anarquia.
Teoricamente, a fisionomia visual destas forças populares e das suas chefias deveria ter sido modernizada pelo Plano de Uniformes de 19 de maio de 1806. Este plano procurava adaptar as forças nacionais às correntes estéticas militares da Europa, mas a iminência da primeira invasão francesa acabou por suspender a sua aplicação prática a nível geral. De acordo com este plano foi consagrado o verde como a cor privativa, distintiva e obrigatória para as fardas dos Oficiais de Ordenanças. Esta escolha cromática gerava uma clara diferenciação em campanha: o tom verde destacava visualmente os comandantes territoriais tanto do exército regular e das milícias (que vestiam maioritariamente o tradicional azul-ferrete) quanto dos novos corpos de Caçadores (que utilizavam o castanho-saragoça ou pinhão).
Para além da casaca curta de pano verde, o plano estipulava que para a cobertura de cabeça usavam um chapéu redondo com uma pluma azul, criando um elo visual com a cor identitária do exército regular. No que toca às insígnias de patente, os oficiais das brigadas de ordenanças deviam aplicar exatamente as mesmas regras de dragonas metálicas ditadas pelo plano de 1806 para espelhar e validar os seus respetivos postos perante as tropas. Contudo, por nunca ter sido confecionado ou distribuído centralmente a tempo, o plano permaneceu virtualmente no papel. Apenas alguns capitães-mores e oficiais de maiores posses mandaram fazer este fardamento verde a expensas próprias para exibir estatuto e autoridade. No terreno, a esmagadora maioria dos cidadãos e milicianos sob o seu comando combateu de forma totalmente paisana, vestindo a sua roupa quotidiana de trabalho.
Quando o território nacional foi fustigado pelas invasões francesas, esta estrutura secular e a sua liderança transformaram-se na rede ideal para coordenar a resistência popular e a guerrilha em cada aldeia. Sem capacidade para enfrentar as forças napoleónicas em batalhas abertas, as ordenanças operaram através de uma desgastante guerra de desgaste, recorrendo ao conhecimento profundo do terreno para cortar linhas de comunicação, assaltar colunas de abastecimento e fustigar destacamentos inimigos isolados. A sua atuação revelou-se decisiva logo na revolta popular de 1808 e ganhou um peso estratégico ainda maior nas campanhas seguintes, servindo também como uma importante rede de espionagem e apoio logístico para o exército anglo-luso comandado por Arthur Wellesley, o Duque de Wellington.
Uma das vertentes mais sufocantes desta guerra assimétrica foi a caça sistemática aos mensageiros e correios franceses. As companhias de ordenança montavam vigias permanentes nos desfiladeiros, cruzamentos e estalagens, tornando quase impossível o tráfego de despachos militares oficiais. Para que uma ordem ou relatório francês pudesse cruzar Portugal em segurança, o exército napoleónico via-se obrigada a mobilizar escoltas desproporcionais de 50, 100 ou até 200 cavaleiros armados para proteger um único mensageiro. Os estafetas isolados eram invariavelmente emboscados, capturados ou executados, e as suas malas de correspondência eram entregues ao quartel-general de Wellington. Esta rotura total nos fluxos de informação teve consequências geopolíticas caricatas e desesperantes para o topo do Império Francês: o próprio Napoleão Bonaparte queixava-se amargamente de que sabia mais depressa as notícias das campanhas de Portugal através dos jornais ingleses (como o “The Times”, que recebia despachos marítimos diretos de Lisboa) do que pelos relatórios oficiais dos seus próprios marechais no terreno, os quais passavam semanas completamente isolados e “cegos” no interior do país.
A eficácia desta força popular ficou demonstrada em episódios marcantes. Durante a segunda invasão francesa, em 1809, o Marechal Soult entrou por Trás-os-Montes e capturou a praça-forte de Chaves. A reação das ordenanças foi imediata: sob a coordenação do General Francisco da Silveira, milhares de camponeses organizaram um cerco popular às montanhas circundantes. Em poucos dias, as ordenanças isolaram a guarnição francesa que ali fora deixada, forçando a sua capitulação e garantindo a reconquista de Chaves, o que bloqueou a principal rota de reabastecimento de Soult. Na posterior retirada caótica dos franceses, as ordenanças minhotas transformaram a geografia do norte num corredor de morte, com destaque para a emboscada na Ponte da Misarela. Armados, como já foi referido, apenas com as suas foices, chuços e velhas caçadeiras, os camponeses destruíram parcialmente a ponte e barricaram-se nos rochedos, forçando o exército francês a cruzar o desfiladeiro sob uma chuva de pedras e tiros, abandonando grande parte do saque roubado.
No ano seguinte, aquando da terceira invasão comandada pelo Marechal Massena, estas forças populares foram os principais executores da tática da “terra queimada” idealizada por Wellington. Ao garantirem a evacuação das populações, a destruição de moinhos e colheitas e a ocultação de gado e bens, as ordenanças negaram aos franceses qualquer capacidade de sustento local. À medida que o exército invasor avançava em direção a Lisboa, as ordenanças fechavam-se à sua retaguarda. Grupos dispersos montaram patrulhas espontâneas que geraram um cerco invisível ao exército francês; as comunicações com Paris foram cortadas de forma absoluta e os soldados invasores foram reduzidos a uma fome extrema.
Se esta estratégia funcionou do ponto de vista militar, para a população civil o preço a pagar foi catastrófico. A destruição sistemática dos campos lançou o país - em particular a região Centro - numa fome sem precedentes, provocando a morte por subnutrição de milhares de civis refugiados. Além disso, a aglomeração forçada de centenas de milhares de pessoas na região de Lisboa, sem quaisquer condições de higiene, espoletou epidemias devastadoras de tifo e disenteria que dizimaram tanto a população como as próprias guarnições das ordenanças. A ruína agrícola foi prolongada, e Portugal demorou décadas a recuperar o seu efetivo pecuário e a capacidade produtiva, mergulhando o país numa profunda crise económica no pós-guerra.
O culminar militar desta estratégia deu-se na articulação com o formidável sistema defensivo das Linhas de Torres Vedras entre 1810 e 1811. Embora habituadas ao combate rústico na floresta, as ordenanças e as milícias assumiram com sucesso a responsabilidade técnica de guarnecer os fortes, redutos e baterias de artilharia, manobrando eficazmente as peças de grande calibre instaladas nas linhas enquanto o exército regular operava em campo aberto. Para blindar preventivamente a capital, organizaram-se 16 legiões nacionais de ordenanças dedicadas à defesa de Lisboa, mobilizando milhares de cidadãos em batalhões treinados à pressa. Adicionalmente, operaram com eficácia o sistema de telégrafos visuais que permitia transmitir mensagens rápidas ao longo de toda a linha defensiva. Confrontado com a impossibilidade de romper as fortificações e privado de mantimentos devido à ação implacável das ordenanças que controlavam o território circundante, o exército de Massena acabou por ser consumido pela fome e pelas doenças, vendo-se forçado a retirar definitivamente de Portugal.
As ordenanças foram, assim, o motor de um impulso de mobilização para uma guerra total, cujo sucesso assentou no sacrifício extremo do povo português para garantir a sobrevivência do Reino
O GREHC recria este corpo, estando uniformizado de acordo com o Plano de Uniformes de 1806, apesar de, como foi referido, este não ter sido colocado em uso.
Bibliografia:
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