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O Grupo de Reconstituição Histórica de Condeixa
tem como objetivo a promoção e divulgação da História de Portugal,
sobretudo, a associada à Época Romana na Península Ibérica
e ao período da “Guerra Peninsular" (1807 - 1814).

ORDENANÇAS As ordenanças constituíram a terceira linha do Exército Português e desempenharam um papel fundamental como f...
21/10/2026

ORDENANÇAS

As ordenanças constituíram a terceira linha do Exército Português e desempenharam um papel fundamental como força de mobilização popular e resistência territorial durante a Guerra Peninsular (1807–1814). Esta instituição de defesa, criada originalmente pelo rei D. Sebastião em 1570, funcionava como um sistema de alistamento obrigatório que abrangia todos os homens válidos entre os 16 e os 60 anos que não estivessem integrados no exército regular ou nas milícias. Organizadas territorialmente por concelhos e vilas, as companhias de ordenança eram formadas por cidadãos comuns, como camponeses e artesãos, que não recebiam fardamento nem salário do Estado. Como o arsenal militar regular estava reservado para a primeira linha, os homens das ordenanças viam-se obrigados a combater maioritariamente com armamento próprio, recorrendo a armas de fogo civis, armas brancas tradicionais e “armas de fortuna” improvisadas a partir de ferramentas agrícolas.
O armamento destas milícias refletia a sua origem popular e rural. Entre as poucas armas de fogo disponíveis destacavam-se as antigas espingardas de caça de pederneira e os bacamartes (espingardas de cano curto e alargado, ideais para disparar metralha à queima-roupa em emboscadas). No entanto, devido à escassez crónica de pólvora e chumbo, a esmagadora maioria do contingente dependia de armas brancas e de hastes. O pique e o chuço (uma lança artesanal curta com ponta de ferro faceada) eram as armas mais comuns, fabricadas em massa por ferreiros locais. Na ausência destas, os camponeses adaptavam os seus instrumentos de trabalho diário em terríveis armas cortantes: foices roçadoras, sachos, machados de corte, gadanhas invertidas e podoas transformavam-se rapidamente em armas de haste improvisadas, capazes de derrubar um cavalo ou perfurar a farda de um soldado francês em combates de proximidade.
A liderança destas companhias cabia ao capitão-mor, uma figura recrutada entre a fidalguia local ou os grandes proprietários de terras. Com a fuga da corte portuguesa para o Brasil e o colapso de muitas instituições do governo central, estes homens assumiram um poder quase absoluto nas suas regiões. Tornaram-se os únicos rostos de autoridade que restavam às populações, competindo-lhes organizar a resistência, decretar prisões de suspeitos de colaboracionismo e mobilizar os homens para o combate. Embora muitos tenham demonstrado um heroísmo notável na defesa dos seus concelhos, a sua atuação nem sempre foi consensual, registando-se por vezes abusos de poder e o uso da autoridade para o ajuste de contas pessoais num clima de quase anarquia.
Teoricamente, a fisionomia visual destas forças populares e das suas chefias deveria ter sido modernizada pelo Plano de Uniformes de 19 de maio de 1806. Este plano procurava adaptar as forças nacionais às correntes estéticas militares da Europa, mas a iminência da primeira invasão francesa acabou por suspender a sua aplicação prática a nível geral. De acordo com este plano foi consagrado o verde como a cor privativa, distintiva e obrigatória para as fardas dos Oficiais de Ordenanças. Esta escolha cromática gerava uma clara diferenciação em campanha: o tom verde destacava visualmente os comandantes territoriais tanto do exército regular e das milícias (que vestiam maioritariamente o tradicional azul-ferrete) quanto dos novos corpos de Caçadores (que utilizavam o castanho-saragoça ou pinhão).
Para além da casaca curta de pano verde, o plano estipulava que para a cobertura de cabeça usavam um chapéu redondo com uma pluma azul, criando um elo visual com a cor identitária do exército regular. No que toca às insígnias de patente, os oficiais das brigadas de ordenanças deviam aplicar exatamente as mesmas regras de dragonas metálicas ditadas pelo plano de 1806 para espelhar e validar os seus respetivos postos perante as tropas. Contudo, por nunca ter sido confecionado ou distribuído centralmente a tempo, o plano permaneceu virtualmente no papel. Apenas alguns capitães-mores e oficiais de maiores posses mandaram fazer este fardamento verde a expensas próprias para exibir estatuto e autoridade. No terreno, a esmagadora maioria dos cidadãos e milicianos sob o seu comando combateu de forma totalmente paisana, vestindo a sua roupa quotidiana de trabalho.
Quando o território nacional foi fustigado pelas invasões francesas, esta estrutura secular e a sua liderança transformaram-se na rede ideal para coordenar a resistência popular e a guerrilha em cada aldeia. Sem capacidade para enfrentar as forças napoleónicas em batalhas abertas, as ordenanças operaram através de uma desgastante guerra de desgaste, recorrendo ao conhecimento profundo do terreno para cortar linhas de comunicação, assaltar colunas de abastecimento e fustigar destacamentos inimigos isolados. A sua atuação revelou-se decisiva logo na revolta popular de 1808 e ganhou um peso estratégico ainda maior nas campanhas seguintes, servindo também como uma importante rede de espionagem e apoio logístico para o exército anglo-luso comandado por Arthur Wellesley, o Duque de Wellington.
Uma das vertentes mais sufocantes desta guerra assimétrica foi a caça sistemática aos mensageiros e correios franceses. As companhias de ordenança montavam vigias permanentes nos desfiladeiros, cruzamentos e estalagens, tornando quase impossível o tráfego de despachos militares oficiais. Para que uma ordem ou relatório francês pudesse cruzar Portugal em segurança, o exército napoleónico via-se obrigada a mobilizar escoltas desproporcionais de 50, 100 ou até 200 cavaleiros armados para proteger um único mensageiro. Os estafetas isolados eram invariavelmente emboscados, capturados ou executados, e as suas malas de correspondência eram entregues ao quartel-general de Wellington. Esta rotura total nos fluxos de informação teve consequências geopolíticas caricatas e desesperantes para o topo do Império Francês: o próprio Napoleão Bonaparte queixava-se amargamente de que sabia mais depressa as notícias das campanhas de Portugal através dos jornais ingleses (como o “The Times”, que recebia despachos marítimos diretos de Lisboa) do que pelos relatórios oficiais dos seus próprios marechais no terreno, os quais passavam semanas completamente isolados e “cegos” no interior do país.
A eficácia desta força popular ficou demonstrada em episódios marcantes. Durante a segunda invasão francesa, em 1809, o Marechal Soult entrou por Trás-os-Montes e capturou a praça-forte de Chaves. A reação das ordenanças foi imediata: sob a coordenação do General Francisco da Silveira, milhares de camponeses organizaram um cerco popular às montanhas circundantes. Em poucos dias, as ordenanças isolaram a guarnição francesa que ali fora deixada, forçando a sua capitulação e garantindo a reconquista de Chaves, o que bloqueou a principal rota de reabastecimento de Soult. Na posterior retirada caótica dos franceses, as ordenanças minhotas transformaram a geografia do norte num corredor de morte, com destaque para a emboscada na Ponte da Misarela. Armados, como já foi referido, apenas com as suas foices, chuços e velhas caçadeiras, os camponeses destruíram parcialmente a ponte e barricaram-se nos rochedos, forçando o exército francês a cruzar o desfiladeiro sob uma chuva de pedras e tiros, abandonando grande parte do saque roubado.
No ano seguinte, aquando da terceira invasão comandada pelo Marechal Massena, estas forças populares foram os principais executores da tática da “terra queimada” idealizada por Wellington. Ao garantirem a evacuação das populações, a destruição de moinhos e colheitas e a ocultação de gado e bens, as ordenanças negaram aos franceses qualquer capacidade de sustento local. À medida que o exército invasor avançava em direção a Lisboa, as ordenanças fechavam-se à sua retaguarda. Grupos dispersos montaram patrulhas espontâneas que geraram um cerco invisível ao exército francês; as comunicações com Paris foram cortadas de forma absoluta e os soldados invasores foram reduzidos a uma fome extrema.
Se esta estratégia funcionou do ponto de vista militar, para a população civil o preço a pagar foi catastrófico. A destruição sistemática dos campos lançou o país - em particular a região Centro - numa fome sem precedentes, provocando a morte por subnutrição de milhares de civis refugiados. Além disso, a aglomeração forçada de centenas de milhares de pessoas na região de Lisboa, sem quaisquer condições de higiene, espoletou epidemias devastadoras de tifo e disenteria que dizimaram tanto a população como as próprias guarnições das ordenanças. A ruína agrícola foi prolongada, e Portugal demorou décadas a recuperar o seu efetivo pecuário e a capacidade produtiva, mergulhando o país numa profunda crise económica no pós-guerra.
O culminar militar desta estratégia deu-se na articulação com o formidável sistema defensivo das Linhas de Torres Vedras entre 1810 e 1811. Embora habituadas ao combate rústico na floresta, as ordenanças e as milícias assumiram com sucesso a responsabilidade técnica de guarnecer os fortes, redutos e baterias de artilharia, manobrando eficazmente as peças de grande calibre instaladas nas linhas enquanto o exército regular operava em campo aberto. Para blindar preventivamente a capital, organizaram-se 16 legiões nacionais de ordenanças dedicadas à defesa de Lisboa, mobilizando milhares de cidadãos em batalhões treinados à pressa. Adicionalmente, operaram com eficácia o sistema de telégrafos visuais que permitia transmitir mensagens rápidas ao longo de toda a linha defensiva. Confrontado com a impossibilidade de romper as fortificações e privado de mantimentos devido à ação implacável das ordenanças que controlavam o território circundante, o exército de Massena acabou por ser consumido pela fome e pelas doenças, vendo-se forçado a retirar definitivamente de Portugal.
As ordenanças foram, assim, o motor de um impulso de mobilização para uma guerra total, cujo sucesso assentou no sacrifício extremo do povo português para garantir a sobrevivência do Reino

O GREHC recria este corpo, estando uniformizado de acordo com o Plano de Uniformes de 1806, apesar de, como foi referido, este não ter sido colocado em uso.

Bibliografia:
BRANCO, Pedro Soares; SILVA, José António Faria e - Uniformes do Exército Português 1792-1814. Porto: Fronteira do Caos, 2023 (Cota BMC: 0-9-328)
BARATA, Manuel Themudo - Nova História Militar de Portugal: volume 3. Lisboa : Círculo de Leitores, 2004. (Cota BMC: 1-9-104)
MARBOT, Barão de - Memórias sobre a 3.ª Invasão Francesa. Casal de Cambra: Caleidoscópio, 2009. (Cota BMC: 0-9-52)
VENTURA, António ; SOUSA, Maria Leonor Machado de - Guerra Peninsular: 200 anos. Lisboa : Biblioteca Nacional de Portugal, 2007. (Cota BMC: 1-0-146)

REGIMENTO DE INFANTARIA 16 Durante a Guerra Peninsular, o fardamento dos soldados e oficiais do Regimento de Infantaria ...
20/10/2026

REGIMENTO DE INFANTARIA 16

Durante a Guerra Peninsular, o fardamento dos soldados e oficiais do Regimento de Infantaria 16 do Exército Português seguia rigorosamente o Plano de Uniformes de 1806, que modernizou o visual das tropas com forte inspiração nos modelos austríaco e britânico da época, respondendo a paleta cromática adotada a imperativos de ordem prática, psicológica e de organização tática no campo de batalha. Os soldados (praças) deste regimento vestiam uma casaca de pano azul-ferrete (azul-escuro) de abas curtas, destacando-se especificamente pelas golas e punhos (canhões) em vermelho, a cor distintiva regulamentar atribuída a esta unidade para a diferenciar dos restantes corpos do exército. Esta casaca era combinada com um colete e calções brancos ou de tecido claro, frequentemente substituídos em campanha por calças de marcha mais resistentes. Na cabeça, os antigos chapéus de duas pontas deram lugar a uma barretina preta de feltro decorada com uma chapa metálica frontal, cordões e o laço nacional azul e encarnado, exigindo-se também o uso de cabelo curto. O equipamento individual era completado por mochilas, cartucheiras e talabartes de couro com uma fivela elíptica que exibia o número 16, além de um capote longo azul-ferrete para o inverno. Por outro lado, os oficiais envergavam um uniforme de corte semelhante, mas confecionado com tecidos de lã de qualidade superior, destacando-se pelos botões de metal dourado e pelo uso de dragonas ou charlateiras douradas nos ombros, cujo trançado e espessura indicavam a patente do comandante, portando ainda espadas ou sabres próprios, faixas de cintura distintivas e óculos de campanha como símbolos de estatuto e comando em campo de batalha.
A escolha e a distribuição destas cores carregavam um profundo significado, utilidade e simbologia, começando pelo facto de que, no caos e no fumo denso provocado pela pólvora negra nos combates napoleónicos, a distinção visual era uma necessidade vital de sobrevivência. A cor base azul-ferrete unificava e identificava o Exército Português perante os seus aliados britânicos (vestidos de vermelho) e inimigos franceses (vestidos de azul ou branco). Em termos práticos e organizacionais, a introdução do vermelho nas golas e punhos do Regimento 16 - alternando com o branco e o amarelo distribuídos por outras unidades - possuía uma utilidade tática crucial, permitindo que os comandantes seniores conseguissem reconhecer instantaneamente a qual regimento ou divisão pertencia cada bloco de infantaria no horizonte dos combates. Além desta utilidade de comando, o laço heráldico da barretina nas cores azul e encarnado carregava a simbologia da própria Coroa e do Estado português, servindo para reforçar o patriotismo das tropas sob uma identidade nacional partilhada. Finalmente, no que toca à hierarquia e ao prestígio social, a cor dourada e o brilho dos botões e das dragonas dos oficiais, em contraste com o metal baço ou estanho das praças, traduziam a transição da riqueza e do estatuto civil para a autoridade militar. O uniforme funcionava, assim, como um espelho de disciplina, pois ao mesmo tempo que as cores sóbrias e escuras da farda incutiam no soldado o espírito de corpo, submissão e conformidade coletiva, os adornos metálicos e as texturas ricas dos oficiais simbolizavam a liderança e o privilégio aristocrático de comando

Bibliografia

BRANCO, Pedro Soares; SILVA, José António Faria e - Uniformes do Exército Português 1792-1814. Porto: Fronteira do Caos, 2023 (Cota BMC: 0-9-328)
PORTUGAL. [Regulamento militar] – Plano dos uniformes com que Sua Alteza Real manda vestir as tropas de linha e milícias destes reinos. Lisboa: Impressão Regia, 1806.
RIBEIRO, Carlos – O Regimento de Infantaria nº 16 e o Plano de 1806. Revista da Defesa Nacional. Lisboa. N.º 43 (1985), p. 12-25.
CASTELO-BRANCO, Nuno – Evolução dos Uniformes: O Plano de 1806. [Em linha]. Lisboa: O Portal da História, 2008. Disponível na Internet: arqnet.pt.

NOTÍCIA HISTÓRICA DO REGIMENTO DE INFANTARIA 16 «Em 1707, quando tomou posse do governo el-rei D. João V, passaram os te...
20/10/2026

NOTÍCIA HISTÓRICA DO REGIMENTO DE INFANTARIA 16

«Em 1707, quando tomou posse do governo el-rei D. João V, passaram os terços de infanteria a denominar-se regimentos, designando-se cada um pelo apelido do mestre de campo ou pelo nome da terra em que fazia guarnição e tinha quartel permanente. Constava cada regimento de doze companhias, sendo uma de granadeiros, que era comandada pelo mestre de campo, embora tal comando fosse honorário a maior parte das vezes.
Pelo decreto do príncipe regente, depois D. João VI, de 19 de maio de 1806, organizou-se o exército em divisões e brigadas, passando a ser numerados os corpos co, o fim de que por esta numeração tivesse cada um o seu lugar constante na linha, sem que para isso dependesse da graduação e antiguidade do chefe que o comandasse.
O exército foi formado em 3 divisões com a designação de divisão do sul, do centro e do norte, tendo cada um quatro brigadas. A infantaria ficou composta de 24 regimentos, passando por esta organização o antigo regimento de Vieira Telles a denominar-se n.º 16 e a pertencer à 2.ª brigada da divisão o centro.
No ano de 1807, depois da invasão de Junot, tratou este por todos os modos desorganizar o exército português, dissolvendo corpos e dando baixas aos soldados que as pediam, para dispensar os elementos de defesa nacional.
Com o intuito de afastar de Portugal as melhores tropas, mandou organizar uma divisão a fim de ir para França, divisão que foi comandada por D. Pedro de Almeida, marquês de Alorna, tendo como imediato Gomes Freire de Andrade.
O novo primeiro regimento desta divisão foi composto dos restos dos regimentos n.os 1, 10, 13 e 16, e partiu de Portugal no mês de março de 1807. Os outros regimentos só se reuniram com o primeiro em França, na cidade de Auch, onde este havia chegado quase dois meses e meio primeiro do que as tropas restantes.
Napoleão Bonaparte decretou a 12 de junho que a divisão portuguesa tomasse o nome de Legião portuguesa, e são de todos bem conhecidos os atos de heroísmo e valor praticados por este punhado de bravos, que acompanharam Napoleão nas suas últimas campanhas, que mesmo tão distante da pátria souberam honrar e ilustrar o nome português, e que foram vítimas, quase na totalidade, da desastrosa campanha da Rússia.

A pátria ia ressuscitar. À custa de invencíveis energias, de épicos esforços dos soldados e do povo, Portugal livre, Portugal independente, ia de novo viver na História.
Restabelecido em 15 de setembro de 1808 o governo do sr. D. João VI, usurpado pelo imperador dos franceses desde o primeiro de Dezembro de 1807, determinaram os governadores do reino a reorganização de todos os corpos das diferentes armas, que compunham o exército português antes da primeira invasão francesa.
O regimento de infantaria n.º 16 ia com os restantes corpos do nosso exército, fazer a reconquista heroica da independência da pátria; o grande edifício da autonomia nacional ia argamassá-lo o sangue glorioso dos soldados portugueses.
Esse extraordinário poder de Napoleão, que num acesso de génio e de vontade heroica, alcançara uma glória sem igual em toda a História, tinha-o abalado um povo pequeno, mas ciumento até à ferocidade da sua independência.
Na obra santa da restituição à História de uma pátria esmagada sob o calcanhar nervoso de um conquistador audaz, nos combates gloriosos da guerra peninsular, o regimento de infantaria 16 foi dos que tiveram mais coragens históricas, dos que mais heroísmos praticaram.
A seguinte enumeração das batalhas e ações em que entrou o regimento de infantaria n.º 16, confirma plenamente esta afirmação.

1809
Combate de Albergaria, em 10 de maio.
Neste combate compunha-se a força portuguesa, dos regimentos de cavalaria n.os 1, 7 e 10, dos regimentos de infantaria n.os 1, 13 e 16, com artilharia n.º 4, cabendo porém a principal glória desta ação ao regimento de infantaria n.º 16.

Combate do Grijó, em 11 de maio.
No combate deste dia o 1.º batalhão do regimento de infantaria n.º 16, pertencente à brigada Stewart, praticou um arrojado movimento, entrando no bosque de Grijó a fim de destruir o inimigo que se achava naquele sito, coberto e entrincheirado. Foi-lhe guia a espada épica do coronel D. Luís Machado de Mendonça, havendo-se esses valentes soldados no ensanguentado conflito, por maneira a mais lisonjeira para os seus créditos de valor e disciplina. O regimento de infantaria 16 começava então a viver na História; começava a ser um exemplo de coragem, uma sugestão de glória.
Ao começar o combate, dirigiu-se o coronel aos seus aliados dizendo-lhes: Valorosos como sois, é chegada a ocasião de mostrar a vossa coragem e patriotismo, - vale mais morrer no combate que deixarmo-nos vencer do inimigo: eu marcharei na vossa frente, segui-me, se virdes que me retiro do fogo inimigo, matai-me!
O poder sugestivo das palavras e do acto do coronel, marchando à frente do seu batalhão foi extraordinário. Os soldados pareciam possessos dos espíritos dos nossos antigos heróis. O inimigo deu duas descargas cerradas. As pontarias foram porém muito elevadas, e nenhuma bala atingiu o coronel. Passa-lhe ao lado uma bala de artilharia. Os soldados do 16, em estremecimentos sagrados de patriótico heroísmo, investem corajosamente com o inimigo. O coronel nuns santos arrebatamentos de amor pátrio, ia sempre na frente de todos. Cai num barranco, mas ei-lo logo, ei-lo de novo na frente, sempre na frente e sempre o primeiro a expor a vida.
D. Miguel Pereira Forjaz em carta dirigida por estes tempos a lord Wellington, diz com relação a este facto o seguinte: «… no ataque à guarda avançada do inimigo em 11 do corrente, eu tenho razões mui fortes para estar assaz satisfeito com o procedimento e bravura do regimento de infantaria n.º 16, comandado pelo sr. coronel Machado.
A ordem do dia de 27 de maio de 1809, referindo-se aos elogios tributados por lord Wellington ao valor do primeiro batalhão de infantaria n.º 16, diz: «O marechal Beresford aproveita esta ocasião de lembrar o merecimento de outro corpo do exército português, o qual tendo já recebido aprovação e aplauso da maior e mais estimável autoridade, não lhe resta para dizer senão, que o primeiro batalhão do regimento de infantaria n.º 16, debaixo das ordens do coronel Machado, recebeu do marechal general sir Arthur Wellesley nas suas ordens publicas os seus agradecimentos pela sua conduta brava, e em tudo distinta na batalha de 11 deste mês, onde este batalhão operava com o exército inglês, do qual ele também adquiriu a aprovação.
«O marechal com satisfação extrema se congratula e dá os seus agradecimentos ao coronel Machado, ao tenente-coronel Doylle, e aos oficiais e soldados deste corpo, pela honra que adquiriram para si e para a pátria, e determina que o coronel Machado faça saber os nomes dos indivíduos das diversas classes que ele deseja sejam recompensados com aumento de posto, etc.»
Combate da passagem do Douro e tomada do Porto, em 12 de maio.

1810
Combate do Molijoso [Mortágua], em 24 de setembro.
Combate do Bussaco, em 26 de setembro.
Batalha do Bussaco, em 27 de setembro.
Nesta memorável batalha, que foi o despertar violento da nação narcotizada [i.e. adormecida], e na qual se distinguiram muitos regimentos de infantaria portuguesa, foi também cheio de heroísmo e comportamento de um batalhão formado quase pelas companhias de granadeiros dos regimentos de infantaria n.os 1 e 16, que, em local correspondente à frente onde se havia estabelecido o quartel-general de Wellington, repeliu o inimigo obedecendo ao então major de infantaria 1, João Carlos de Saldanha Oliveira e Daun, mais tarde duque de Saldanha e marechal do exército.
A brigada portuguesa do comando do brigadeiro-general Pack, composta dos regimentos de infantaria 1, 16 [Nota: O regimento de infantaria n.º 16 era então comandado pelo major Ricardo Armstrong] e caçadores 4, e a divisão de tropas ligeiras comandada pelo brigadeiro Crawfurd, tiveram por missão especial nesta batalha a defesa da esquerda da linha, que foi atacada por três divisões de infantaria do sexto corpo do exército francês. «Além destes ataques, (diz Wellington na sua parte oficial desta batalha, dada ao conde de Liverpool em 30 de setembro), as tropas ligeiras de ambos aos exércitos bateram-se todo o dia 27, e o batalhão n.4 de caçadores portugueses e os regimentos de infantaria n.os 1 e 16, dirigidos pelo brigadeiro-general Pack e comandados pelos tenentes-coronéis Luís Rego Barreto, Hill e Armstrong, mostraram grande firmeza e bravura.»
O monumento erigido na serra do Bussaco por iniciativa do sr. general Joaquim da Costa Cascaes, tem por fim comemorar esta batalha e levantar um padrão, embora modesto, em memória das ações de valor e heroísmo do exército português durante a guerra peninsular.
Combate de Alenquer, em 10 de outubro.
Combate da Ponte do Calhariz, em 22 de novembro.

1811
Combate de Pombal, em 11 de março.
Combate da Redinha, em 12 de março.
Combate da Ponte da Mucela, em 18 de março.
2.º Bloqueio da Praça de Almeida, desde 16 de abril até 11 de maio.
Combate de Alfaiates, em 22 de setembro.

1812
Sítio da praça de Ciudad Rodrigo, desde 7 até 19 de janeiro.
Assalto e tomada da praça de Ciudad Rodrigo, em 19 de Janeiro.
Wellington fez constituir cinco colunas das suas tropas, destinadas a dar um assalto à praça de Ciudad Rodrigo. A brigada do general Pack, que era composta dos regimentos 1 e 16 de infantaria e que formava a quinta coluna, tinha por missão especial realizar um ataque simulado pela parte meridional da praça.
«Todos os ataques [Nota: Ofício dirigido por lord Wellington a D. Miguel Pereira Forjaz, do quartel-general de Gallegos, em 2 de janeiro de 1812.] se fizeram com sucesso, diz lord Wellington e o brigadeiro-general Pack excedeu as minhas esperanças, convertendo o seu falso ataque em ataque verdadeiro, e a sua guarda avançada, debaixo do comando do major Linch, tendo seguido as tropas inimigas que guarneciam as obras exteriores, fez prisioneiros a quantos se lhe opunham.
Bastou meia hora de combate, depois de investidas as brechas e escaladas as muralhas, para dar a vitória aos exércitos aliados, apesar da heroica resistência dos defensores.
Wellington nas suas participações oficiais referentes ao assalto da praça de Ciudad Rodrigo, diz ainda o seguinte: «os regimentos portugueses 1 e 16 comandados pelos srs. coronéis Hill e Campbell, que compõem a brigada do general Pack, se distinguiram igualmente e este general particularmente recomenda o major Linch.»

Batalha de Salamanca, em 22 de julho.
Combate de Estepar, em 17 de setembro.
Assalto ao Hornoveque do castelo de Burgos, em 19 de Stembro.
Sítio do castelo de Burgos, desde 19 até 21 de outubro.
Combate de Carrion, em 25 de outubro.
Defesa da passagem do Tormes, desde 8 até 14 de novembro.
Combate de Huerba e San Muñoz, em 17 de novembro.

1813
Batalha de Vitória, em 21 de junho.
A brigada Pack, de que fazia parte o regimento de infantaria n.º 16, recebeu ordem de iniciar o ataque flanqueado e ganhando as alturas, onde estacionavam numerosas forças do exército francês.
Cumpriu ousadamente a determinação recebida, tomou as alturas e apoderou-se de todos os pontos onde se achavam estabelecidos os franceses, depois de uma defesa heroica de tenaz da parte destes, que tiveram de retirar vencidos e desanimados e deixando aos nossos, entre os destroços da derrota, três peças de artilharia.
Concorreu portanto esta brigada, pela sua boa ordem e valor, para o feliz resultado da batalha de Vitória e isso é afirmado pelo marechal Beresford, na sua ordem do dia de 1 de junho de 1813, dizendo: - «O marechal não pode prescindir de dar os seus agradecimentos à brigada do comando do brigadeiro Diniz Pack, composta dos regimentos de infantaria n.os 1 e 16 e batalhão de caçadores n.º 4 e de exprimir a sua completa satisfação a respeito de todos os oficiais inferiores e soldados destes corpos. O sr. brigadeiro, os comandantes dos corpos, oficiais, oficiais inferiores e soldados desta brigada, aceitaram a aprovação do sr. marechal, que não deixará de fazer menção deles a sua alteza real.»
O comandante do regimento de infantaria n.º 16, nesta época, era o coronel Francisco Homem de Magalhães Quevedo Pizarro.

Combate de Vila Franca e Lascaño, em 21 de junho.
Neste combate achou necessário o tenente-general Graham, no momento em que o inimigo reforçava o seu flanco esquerdo, fazer avançar por uma calçada um batalhão ligeiro, auxiliado e flanqueado pelos regimentos portugueses de infantaria n.os 1 e 13 e batalhão de caçadores n. 4 da brigada Pack: «e tal serviço foi executado da maneira mais galharda por estas valorosas tropas, que expulsaram o inimigo da aldeia de Vearyn». [nota: Oficio do tenente-general Graham, dirigido de Tolosa a lord Wellignton, em 26 de julho de 1813.]

Combate de Tolosa, em 25 de junho.
Sítio da praça de S. Sebastião, desde 9 de julho até 31 de agosto.
1.º assalto à praça S. Sebastião de Guipuzcoa, em 25 de julho.
Sítio do castelo da praça de S. Sebastião, desde 31 de agosto até 8 de setembro.

Nesta época pertencia o regimento de infantaria n.º 16 à primeira brigada, comandada pelo brigadeiro Wilson, pois pela ordem do dia de 13 de agosto, haviam sido as brigadas designadas numericamente.

Combate da passagem do Bidassoa, em 18 de outubro.
Batalha do Nievelle, em 10 de novembro.
Combate de Bidart, em 18 de novembro.
Batalha de Nice, em 3 de dezembro.

1814
Sítio da praça de Bayonna, desde 27 de fevereiro até 28 de abril.

Como acaba de ver-se, o regimento de infantaria n.º 16 tomou parte em 6 batalhas, 17 combates, 5 assaltos, 1 bloqueio, 1 defesa, conquistando glórias imortais durante as companhias da guerra peninsular, nesta luta esforçada que a nação portuguesa sustentou contra os exércitos do imperador dos franceses, guerra para nós era direito incontestável dever, porque poucas têm sido as invasões de que reza a história com tão frívolos pretextos por fundamento, como os que trouxeram os soldados de Napoleão a pisar por tês vezes sacrilegamente o solo sagrado de Portugal.»

In: CARVALHO, Joaquim Martins de — Notícia histórica do Regimento de Infantaria 16. “O Conimbricense”. Coimbra. N.º 5304 (13 set. 1898); n.º 5305 (17 set. 1898); n.º 5306 (20 set. 1898).

“VENCER OU MORRER”O “Corpo Militar Académico”, também conhecido como “Batalhão Académico”, foi uma força militar voluntá...
19/10/2026

“VENCER OU MORRER”

O “Corpo Militar Académico”, também conhecido como “Batalhão Académico”, foi uma força militar voluntária constituída por professores, doutores, estudantes e funcionários da Universidade de Coimbra que se uniram para combater as tropas napoleónicas durante as Invasões Francesas. O ambiente de insurreição contra os franceses atingiu, nesta cidade, o seu ponto alto em junho de 1808, impulsionado pelas notícias da revolta que estalara no Porto. Foi na Rua da Sofia, em plena Baixa de Coimbra, que o pavio da resistência foi definitivamente aceso: num ato de enorme audácia popular e estudantil, os revoltosos cercaram o Colégio de São Tomás, então quartel-general das forças de Napoleão, prendendo o governador militar francês da cidade, o comissário de guerra e outros oficiais ocupantes. Este levantamento inicial na Rua da Sofia culminou com a destituição das autoridades napoleónicas, a reposição das armas reais portuguesas na Câmara Municipal e a aclamação do Príncipe Regente D. João.
Imediatamente após este motim vitorioso, a 25 de junho, e cientes de que era preciso cortar as linhas de comunicação inimigas, um destacamento de voluntários - na sua quase totalidade estudantes universitários - partiu de Coimbra em direção à Figueira da Foz. Dois dias mais tarde, a 27 de junho de 1808, este grupo destemido alcançou o seu objetivo. Liderados por Bernardo António Zagalo - um jovem sargento de artilharia e aluno da universidade que se revelou um estratega astuto ao aliciar e sublevar milhares de camponeses civis ao longo das margens do rio Mondego -, avançaram para a tomada do Forte de Santa Catarina, que controlava a estratégica barra do rio. A investida apanhou os ocupantes colaboracionistas de surpresa, precipitando a rendição francesa. Esta vitória teve uma importância militar gigantesca: ao libertar o forte, os académicos garantiram o porto seguro que permitiu, a 1 de agosto de 1808, o desembarque bem-sucedido das tropas britânicas do General Arthur Wellesley (futuro Duque de Wellington), mudando o rumo da Guerra Peninsular.
O êxito desta revolta em cadeia catalisou os ânimos e incentivou a criação formal do batalhão, estruturado de forma rigorosa com seis companhias de infantaria, um corpo de cavalaria e uma companhia de artífices. Esta última contava com o apoio do corpo docente e reitoral da Universidade de Coimbra, que cedeu recursos institucionais de relevo, transformando o Laboratório Químico num centro fabril onde lentes e artífices produziam, de forma artesanal, a pólvora e os projéteis necessários para colmatar a escassez de munições. Sob o lema gravado nos seus emblemas, "VENCER OU MORRER ", os voluntários assumiram a sua missão com um compromisso inabalável.
O heroísmo do Corpo Voluntário Académico ganhou verdadeira projeção nos campos de batalha da Segunda Invasão Francesa, em 1809. Face ao avanço impiedoso do Marechal Soult no Norte, as forças do Batalhão Académico assumiram uma posição de extremo sacrifício na vanguarda da defesa da linha do rio Vouga e da região da Bairrada. Agindo como forças de choque e em operações rápidas de guerrilha sob intensa pressão, os estudantes resistiram com tenacidade nas trincheiras improvisadas, travando o avanço inimigo e protegendo o flanco de Coimbra. Em maio desse mesmo ano, a coragem deste corpo ficou demonstrada no violento Combate de Grijó, onde uma divisão de voluntários académicos, a pedido do comando aliado, integrou a vanguarda da Divisão Paget. Sob o fogo cerrado de artilharia, os estudantes demonstraram uma disciplina militar invulgar para voluntários civis, flanqueando as linhas napoleónicas e participando ativamente, no dia 12 de maio de 1809, na decisiva travessia do rio Douro que resultou na reconquista e libertação da cidade do Porto. A sua ação estendeu-se com igual audácia às regiões de Leiria e da Nazaré, onde os voluntários capturaram dezenas de militares franceses em missões de vigilância e emboscadas florestais. Para além do impacto no campo de batalha, o Corpo Académico deixou uma marca indelével na cultura e na resistência civil, impulsionando o nascimento da imprensa académica em Coimbra através da publicação de jornais e manifestos patrióticos, como a “Minerva Lusitana”, impressos na tipografia da universidade.
Contudo, em 1810, Portugal enfrentou a mais devastadora das incursões napoleónicas, a Terceira Invasão Francesa, comandada pelo Marechal Massena. Após sofrer uma pesada derrota na vizinha Batalha do Bussaco frente às forças luso-inglesas, o exército francês contornou a serra e avançou em direção a Coimbra. Antecipando o perigo, Wellington ordenou a evacuação em massa da população civil de modo a deixar apenas "terra queimada" para trás. Quando Massena entrou em Coimbra, encontrou uma cidade praticamente deserta, onde as tropas francesas saquearam violentamente o património local, danificando habitações e colégios universitários. Foi este cenário caótico de guerra, a par da fuga e da mobilização total da comunidade académica, que forçou o encerramento temporário da instituição de ensino. Com o território progressivamente pacificado e a atividade letiva suspensa, o Batalhão Académico acabou por ser oficialmente dissolvido por alvará régio a 15 de abril de 1811, eternizando-se na história de Portugal como um símbolo máximo da mobilização, da bravura militar e do patriotismo universitário.

O GREHC recria o “Corpo Militar Académico” ou “Batalhão Académico”, através de um elemento - o seu fotógrafo - que enverga o uniforme deste corpo.

Bibliografia consultada:
ARAÚJO, Ana Cristina - A participação do Batalhão Académico de Coimbra na derrota dos franceses no Porto. In RAMOS, Luís Oliveira, coord. - Porto e as Invasões Francesas (1809-2009). Porto : Público, 2009. p. 245-260. (cota BMC: 0-9-100)
BARREIROS, Fernando - Notícia histórica do corpo militar académico de Coimbra : 1808-1811. Lisboa : Edição do Autor, 1918. (cota BMC: GHC 4)
FIOLHAIS, Carlos - O Batalhão Académico de 1808. Rua Larga : Revista da Reitoria da Universidade de Coimbra. Coimbra. Nº 22 (2008) p. 14-16. (cota BMC: GHC-54 S)
TORRES, Mário de Araújo, recolha de textos, introd. - O Corpo militar Académico de 1808 a 1811 : memórias de Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva [et al.]. Lisboa : Edições Ex Libris, 2020. (cota BMC: GHC 6)

Fotografia:
João Cordeiro - photo

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