12/10/2026
OLHAR POLÍTICO |
A nível internacional, a guerra de Trump no Irão arrastou-nos a todos para um agravamento da crise socioeconómica, com os preços da habitação, alimentação e combustíveis a disparar para valores nunca vistos. O problema é que nem todos pagam a crise na mesma proporção. Há, aliás, quem ganhe muito com ela. Basta ver o que se passa nas gasolineiras, na banca e no grande comércio, que registam lucros recorde trimestre após trimestre. A realidade é que o peso das dificuldades económicas recai sempre sobre quem tem menos.
A nível nacional, verif**a-se a mesma situação, agravada pelos salários baixos praticados em Portugal. E, no entanto, a solução do governo PSD passa por coisas como consumir menos, gastar menos, usar menos, no fundo, viver menos. É o manual para sermos pobres melhores. Ou pelo menos, mais caladinhos. O ministro Adjunto e da Coesão Territorial, Castro Almeida, diz para evitarmos custos de gasolina desnecessários. A solução da ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, é a partilha de boleias. Bonito, de facto. Num país com uma oferta muito reduzida de transportes públicos e de infraestruturas de qualidade, f**a complicado. E será uma questão de tempo até os preços dos passes sociais dispararem também.
A nível local, no nosso concelho, que oferta temos a nível de transportes públicos, quer dentro do concelho, quer na ligação aos concelhos vizinhos? Como é que a autarquia se propõe melhorar a vida dos lagoenses neste sentido?
E a crise da habitação? Todos os dados apontam para que os portugueses já não consigam pagar a casa que já têm, sem ser com enorme sacrifício, não conseguem comprar casa, não conseguem arrendar. Esta semana vimos o caso de Maricarmen Abascal, uma idosa espanhola de 87 anos, que foi despejada de sua casa por um fundo de investimento imobiliário. É a tragédia social a acontecer à frente dos nossos olhos. E vários peritos se pronunciaram dizendo que, com a atual legislação, este caso poderia acontecer também em Portugal. Que sociedade construímos, que não protege quem mais precisa? Que hipoteca o futuro de toda uma geração?
O aumento do preço dos bens essenciais, dos combustíveis e da habitação consomem a totalidade dos rendimentos de quem vive no limiar da subsistência. Aliás, cada vez mais pessoas estão a ser atiradas para esse limiar da subsistência, precisamente devido ao aumento desenfreado do custo de vida. Não é o luxo que a classe trabalhadora está a perder, é a normalidade de poder ter casa, comida, família e segurança.
Nos tempos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, dizia-se “os ricos que paguem a crise”. Já o título deste texto era uma frase que o meu tio dizia muitas vezes e da qual nunca me esqueci. Dizia ele que era de um ministro francês do tempo da monarquia. Provavelmente do tempo em que alguém terá dito “não têm pão? Que comam bolos!”. E bem se viu como acabou essa época da história francesa. Está na hora de termos medidas corajosas e justas, que de facto melhorem ou pelo menos facilitem um pouco a vida do português comum, em vez de beneficiar sempre os mesmos.
✍Daniela Silveira
Comissão Coordenadora Concelhia do Bloco de Esquerda de Lagoa