18/12/2025
As Saturnálias numa Casa Romana da Lusitânia
Era o dia dezassete de dezembro e Lúcio, veterano das legiões que recebera terras perto de Olissipo, acordou antes do sol, porque nesse dia não havia trabalho nos campos nem contas com os cobradores, havia apenas o caminho até ao pequeno templo de Saturno que os colonos tinham erguido na colina, e chamou Cláudia, a esposa, e os filhos, Marco e Júlia, e chamou também os escravos, Gaio, Tito e a velha Ama, e todos juntos atravessaram a vila, e a vila estava cheia de vizinhos, cada qual com o seu cântaro de vinho, o seu pão de trigo, a sua pequena oferenda, e diante da estátua do deus, que durante todo o ano permanecia com os pés atados em lã, viram os sacerdotes libertarem-lhe os tornozelos, e foi como se o próprio tempo tivesse sido solto, porque Saturno era o senhor das sementes e do passado, e agora, livre, abria a porta da festa.
Voltaram para casa e a casa parecia outra, porque Cláudia já tinha pendurado ramos de pinheiro e loureiro dos montes lusitanos nas portas, guirlandas de azevinho nas paredes, e acendido velas que tremiam como pequenos sóis, lembrando que o solstício de inverno já tinha chegado e que os dias voltariam a crescer. Os escravos riam, porque sabiam que por uma semana não seriam escravos, e os senhores riam também, porque estava permitido esquecer a seriedade da ordem.
Na sala principal, Lúcio colocou a mesa, e a mesa era abundante, carnes de porco criados na quinta, cabritos assados, peixes trazidos do estuário do Tejo, pães brancos, bolos de mel, figos secos, tâmaras vindas em caravanas de Hispânia, romãs, queijos de cabra e vinho, muito vinho, e todos se sentaram sem hierarquia, o escravo ao lado do senhor, a criança ao lado da ama, e ninguém mandava, ninguém obedecia.
— Hoje bebes comigo, Gaio, disse Lúcio ao escravo mais velho, e Gaio respondeu, bebo, senhor, mas hoje não há senhores, e todos riram, porque era verdade, e talvez fosse isso que Sêneca, nascido na vizinha Córdoba, quis dizer quando escreveu que nas Saturnálias até o mais humilde podia falar livremente, sem medo de castigo.
Foi então que Marco, o filho mais velho, levantou-se e disse que era hora das prendas, e trouxe um s**o com pequenos embrulhos, cada um acompanhado de um verso, e o verso escondia o nome do destinatário, e o jogo era descobrir, e Gaio, que sabia ler, foi escolhido para ser o voluntário, e leu em voz alta, e todos tentaram adivinhar, e quando finalmente se acertava, a prenda passava de mão em mão, uma taça de barro feita por artesãos locais, um colar de contas, um boneco de cera, uma vela colorida, e o dono ria, agradecia, bebia mais vinho.
No meio da festa, escolheram o rei da Saturnália, e foi Tito, o escravo mais novo, que recebeu a coroa de papel e ordenou que todos cantassem, e todos cantaram, e ordenou que Cláudia dançasse, e Cláudia dançou, e ordenou que Lúcio servisse vinho, e Lúcio serviu, e a casa inteira virou ao contrário, como se Saturno tivesse devolvido por uns dias a Idade de Ouro, quando não havia senhores nem escravos, apenas homens e mulheres vivendo em abundância.
Mas não era só a casa de Lúcio que se transformava, era a Lusitânia inteira, porque nas ruas de Olissipo penduravam-se guirlandas verdes, pinheiros e loureiros nas portas, velas acesas nas janelas, e o cheiro de carne assada misturava-se com o das especiarias vindas do Oriente, e o ar tornava-se pesado de abundância. No mercado, os vendedores gritavam menos, porque sabiam que todos comprariam de qualquer maneira, e os clientes riam mais, porque não havia pressa, e até os escravos vinham escolher frutas secas e bonecos de barro, os sigillaria, que seriam oferecidos como presentes.
As praças transformavam-se em palco, músicos tocavam flautas e tambores, dançarinos improvisavam passos, crianças corriam com bonecos de cera nas mãos, e os adultos bebiam vinho sem medida, porque Saturno tinha decretado que por sete dias não havia hierarquia, e o vinho corria como se fosse água. Nos teatros improvisados representavam-se farsas e comédias, e o público ria alto, porque estava permitido rir sem contenção, e nas tabernas, senhores e escravos bebiam lado a lado, e ninguém se lembrava de quem mandava ou de quem obedecia.
À noite, as ruas iluminavam-se com tochas, e parecia que a Lusitânia inteira tinha virado uma constelação, cada casa uma estrela, cada praça um sol, e os cantos ecoavam pelas colinas que rodeavam Olissipo, como se a província fosse um único corpo a celebrar.
E quando chegava o último dia, vinte e três de dezembro, havia uma cerimónia discreta, despediam o rei da Saturnália, apagavam algumas velas, guardavam as guirlandas já secas, e a Lusitânia voltava à ordem habitual, mas não sem antes sentir que tinha vivido, por uma semana, a memória da Idade de Ouro, quando Saturno reinava e todos eram iguais.
— Amanhã voltamos ao campo, disse Lúcio, e Tito respondeu, amanhã volto a ser escravo, mas hoje ainda sou rei, e todos riram, porque sabiam que a festa estava a acabar, mas também sabiam que voltaria no próximo inverno, e que Saturno nunca falha.
As Saturnálias eram isso: a promessa de abundância, a celebração da luz que regressa, a recordação de que o tempo pode ser suspenso, e a certeza de que, mesmo numa província distante do império, havia espaço para a alegria partilhada.
E quando a Lusitânia apagava as velas do último dia, vinte e três de dezembro, e guardava as guirlandas já secas, e despediam o rei da Saturnália, voltava-se à ordem habitual, mas não sem antes sentir que tinha vivido, por uma semana, a memória da Idade de Ouro, quando Saturno reinava e todos eram iguais.
Séculos depois, quando o império já não era o mesmo e os deuses antigos cediam lugar ao Deus único, as Saturnálias não desapareceram, apenas mudaram de nome, de forma, de calendário. Na Lusitânia, os ramos verdes de pinheiro e loureiro continuaram a ser pendurados nas casas, agora como símbolos cristãos de esperança e eternidade. Os banquetes de cabrito e porco, os doces de mel e os frutos secos mantiveram-se como parte das celebrações de inverno, e a troca de presentes, outrora bonecos de barro e velas coloridas, transformou-se em oferendas natalícias.
Os costumes locais misturaram-se com os romanos: as fogueiras de solstício que os povos lusitanos acendiam nas aldeias juntaram-se às velas romanas, criando tradições de luz que atravessaram séculos. O espírito de igualdade e de suspensão das hierarquias, que nas Saturnálias permitia ao escravo sentar-se ao lado do senhor, ecoou nas festas populares da Península, onde todos se reuniam em torno da mesa e da música, sem distinção.
E assim, da casa de Lúcio às nossas casas modernas, das ruas de Olissipo às cidades iluminadas de hoje, a Saturnália nunca deixou de existir, apenas se vestiu de novo. O que significava para os antigos romanos — esperança, liberdade, partilha — continua a significar para nós, ainda que o nome seja outro: Natal, solstício, festas de inverno.