12/06/2026
INVESTIGAÇÃO
𝐑𝐮𝐚 𝐝𝐨 𝐒𝐨𝐥 𝐚 𝐂𝐡𝐞𝐥𝐚𝐬: 𝐟r𝐚g𝐦e𝐧t𝐨s d𝐞 𝐮m𝐚 𝐡i𝐬t𝐨́r𝐢a t𝐨p𝐨n𝐢́m𝐢c𝐚
(...) 𝐴 𝑟𝑒𝑓𝑒𝑟𝑒̂𝑛𝑐𝑖𝑎 𝑎𝑜 𝑎𝑠𝑡𝑟𝑜-𝑟𝑒𝑖 𝑠𝑢𝑟𝑔𝑒 𝑒𝑠𝑝𝑜𝑟𝑎𝑑𝑖𝑐𝑎𝑚𝑒𝑛𝑡𝑒 𝑛𝑎 𝑡𝑜𝑝𝑜𝑛𝑖́𝑚𝑖𝑎 𝑙𝑖𝑠𝑏𝑜𝑒𝑡𝑎, 𝑐𝑟𝑖𝑎𝑛𝑑𝑜 𝑢𝑚𝑎 𝑎𝑠𝑠𝑜𝑐𝑖𝑎𝑐̧𝑎̃𝑜 𝑠𝑢𝑔𝑒𝑠𝑡𝑖𝑣𝑎 𝑒𝑛𝑡𝑟𝑒 𝑎 𝑑𝑒𝑛𝑜𝑚𝑖𝑛𝑎𝑐̧𝑎̃𝑜 𝑑𝑜 𝑙𝑢𝑔𝑎𝑟 𝑒 𝑜 𝑠𝑖𝑚𝑏𝑜𝑙𝑖𝑠𝑚𝑜 𝑑𝑒 𝑢𝑚𝑎 𝐿𝑖𝑠𝑏𝑜𝑎 𝑠𝑜𝑙𝑎𝑟𝑒𝑛𝑔𝑎 𝑒 𝑑𝑒 𝑙𝑢𝑚𝑖𝑛𝑜𝑠𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒 𝑠𝑒𝑚 𝑟𝑖𝑣𝑎𝑙. (...)
𝗔𝘁𝗲𝗻𝘁𝗲𝗺𝗼𝘀 𝗻𝗮 𝗥𝘂𝗮 𝗱𝗼 𝗦𝗼𝗹 𝗮 𝗖𝗵𝗲𝗹𝗮𝘀
Na malha urbana de Lisboa, o topónimo surge em dois pontos distintos: junto à Praça Paiva Couceiro, na freguesia da Penha de França, e na zona baixa do Vale de Chelas, na freguesia do Beato. Esta aparente fragmentação convida-nos a olhar para além da cartografia contemporânea e a procurar, nesses fragmentos toponímicos, a memória de um percurso antigo.
A existência de dois troços separados começa a ganhar sentido se os lermos como vestígios residuais de um traçado histórico mais extenso, ligado à antiga rede de caminhos rurais da zona oriental de Lisboa e à sua posterior transformação. Nesse contexto, encontramos uma primeira referência ao topónimo na cartografia de Filipe Folque, de 1856-1858, o que não signif**a, de todo, que o caminho não lhe seja anterior. O traçado é longo e estende-se entre os pontos hoje em foco, atravessando todo o vale.
Identif**a-se aí a relação estruturante da Estrada de Chelas com as zonas altas da Penha de França, Morais Soares e Picheleira, numa teia de encruzamentos que ligava hortas, casas dispersas, terrenos de cultivo e pequenas propriedades rurais. Recuperamos da cartografia a Rua de Cima de Chelas, a Azinhaga da Salgada, as calçadas do Teixeira e da Picheleira, além de várias quintas, como a do Ourives, da Conceição, da Curraleira e do Sol, cujos nomes, percursos e delimitações mudaram ou consolidaram-se ao longo do tempo.
𝗢𝗿𝗶𝗴𝗲𝗺 𝗲 𝗰𝗼𝗻𝘀𝗼𝗹𝗶𝗱𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗱𝗼 𝘁𝗼𝗽𝗼́𝗻𝗶𝗺𝗼
Entremos na análise toponímica. Junto ao extremo poente do arruamento, próximo da cidade, aparece assinalada, na planta de Silva Pinto, de 1911, uma Quinta do Sol. É de admitir a hipótese, embora não confirmada por documentação expressa, de o topónimo ter aí a sua origem, sobretudo se recordarmos que grande parte da toponímia destas vias campestres nascia da necessidade da orientação geográf**a das populações, sustentando-se e criando raízes na oralidade.
A referência ao astro-rei surge esporadicamente na toponímia lisboeta, criando uma associação sugestiva entre a denominação do lugar e o simbolismo de uma Lisboa solarenga e de luminosidade sem rival.
São atualmente oito os topónimos a ele associados: o que serve de tema a este estudo, o Beco do Forno do Sol, o Largo das Portas do Sol e as ruas do Sol ao Bairro de São João de Brito, do Sol à Graça, do Sol a Santa Catarina, do Sol a Santana e do Sol ao Rato. Para melhor identif**ar as quatro últimas, o edital do Governo Civil de Lisboa de 1 de setembro de 1859 adicionou a localização na cidade.
A decisão de conservar o topónimo Rua do Sol a Chelas, embora sem o oficializar em edital, foi tomada pela Comissão Consultiva Municipal de Toponímia, órgão consultivo camarário para a temática, já no século XX. Em reunião de 2 de março de 1945, no âmbito do levantamento e revisão geral da toponímia em uso, trabalho que se prolongou por três anos, a Comissão confirmou-o, reconhecendo-o como uma denominação consolidada, suficientemente enraizada para permanecer na lista dos nomes das ruas da cidade.
Retomando a cartografia, comparando as cartas de Filipe Folque e Silva Pinto, separadas por cerca de cinquenta anos, vemos que o traçado da rua não teve alterações de m***a. Porém, a sua toponímia apresenta uma pequena diferença: em Filipe Folque aparece como Rua do Sol a Estrada de Chelas; já em Silva Pinto, está como Rua do Sol a Chelas, o nome atual. A diferença acentua, num primeiro momento, a relevância local da Estrada de Chelas, afastando-se depois dela na forma toponímica, o que evidencia que o uso local, a cartografia e a leitura administrativa nem sempre coincidem plenamente, confirmando a ambiguidade própria de alguma toponímia popular.
Uma outra quinta, a da Conceição, amplia a nossa leitura social do lugar. Situada junto à Estrada de Chelas, na proximidade da Rua do Sol a Chelas e da Calçada do Teixeira, esta quinta surge associada a proprietários ligados ao comércio ultramarino e a famílias mercantis, lembrando que este território mesclava a ruralidade com casas de recreio e de aparato, servindo também interesses económicos diversif**ados. Já no século XIX, a implantação do Cemitério do Alto de São João, em terrenos anteriormente associados à Quinta dos Apóstolos, definiu novos limites, acessos e usos numa zona ainda em transição entre o mundo rural e a urbanização.
No final do mesmo século, segundo documentação do Arquivo Municipal de Lisboa, datada de 12 de janeiro de 1889, houve trabalhos de alinhamento, correção e alargamento da rua, abrangendo a Azinhaga dos Sete Castelos, as calçadas de Santo António a Chelas e de Baixo da Penha, e as ruas Barão de Sabrosa, Morais Soares e Sabino de Sousa. Esta informação é demonstrativa da inserção do antigo caminho na rede da cidade em expansão.
Também ao longo dos séculos XIX e XX, a matriz rural do Vale de Chelas foi sendo transformada pela progressiva industrialização da zona oriental de Lisboa. A Rua do Sol a Chelas passou a integrar uma paisagem onde pequenos polos fabris se foram desenvolvendo. A necessidade de operários e a falta de infraestruturas para os acolher causaram o crescimento acelerado de bairros abarracados, sem planeamento ou infraestruturas básicas. A história do antigo caminho passou, assim, a refletir não só a transformação física do vale, mas também as desigualdades sociais que acompanharam o crescimento industrial de Lisboa.
Na segunda metade do século XX, a área formada pela Quinta da Curraleira, pela Calçada do Carrascal e pela Rua do Sol a Chelas estava consolidada como um dos núcleos de habitação precária mais signif**ativos da zona oriental da cidade. O recenseamento do PER, Programa Especial de Realojamento, iniciado em 1993, identificou 564 famílias nos bairros degradados. O primeiro Plano de Urbanização datou de 1970, mas só nos anos 2000 se iniciou a demolição dos bairros de barracas, como eram vulgarmente chamados.
Chegamos assim à problemática da existência dos dois troços. A reconversão urbanística, traduzida em realojamentos, implantação de novos bairros municipais e reorganização viária, ocupou em grande parte o antigo traçado da Rua do Sol a Chelas. Do percurso original, no entretanto eliminado enquanto eixo contínuo, sobreviveram apenas as extremidades, distantes e sem ligação urbana entre si, exceto na toponímia.
Podemos perguntar-nos se uma via perde coesão social e cultural quando transformações urbanas profundas impõem novos traçados. A resposta será afirmativa, mas não será difícil reconhecer que a toponímia preserva sempre parte da sua identidade, guardando na memória da cidade aquilo que, de outro modo, se perderia.
BIBLIOGRAFIA:
Câmara Municipal de Lisboa. (s.d.). "Cartografia histórica: Filipe Folque, 1856-1858". Lisboa Interativa, LXi.;
Câmara Municipal de Lisboa. (s.d.). "Cartografia histórica: Silva Pinto, 1911". Lisboa Interativa, LXi.;
https://websig.cm-lisboa.pt/MuniSIG/visualizador/index.html?viewer=LxInterativa.LXi;
Câmara Municipal de Lisboa, Arquivo Municipal. (1907-1920). "Alinhamento da Rua do Sol a Chelas" [processo relativo a alinhamento e alargamento aprovados em 12 de janeiro de 1889]. Arquivo Municipal de Lisboa.
https://arquivomunicipal.lisboa.pt/
Câmara Municipal de Lisboa. (s.d.). "Cemitério do Alto de São João". Lisboa.pt.
https://informacoeseservicos.lisboa.pt/contactos/diretorio-da-cidade
Câmara Municipal de Lisboa. (s.d.). "Quadro com o recenseamento PER inicial" (Anexo IV, Programas de realojamento). Câmara Municipal de Lisboa;
Câmara Municipal de Lisboa. (2015). "Plano de Urbanização do Vale de Chelas: proposta". Câmara Municipal de Lisboa;
Câmara Municipal de Lisboa. Revelar Lisboa: Toponímia.
https://revelar.lisboa.pt/explorar/toponimia;
Comissão Consultiva Municipal de Toponímia. (1945, 2 março). "Acta da reunião da Comissão Consultiva Municipal de Toponímia". Câmara Municipal de Lisboa;
Reis e Silva, M. (2019). "Para onde a indústria os levou: crescimento urbano de Marvila e Beato a partir de 1835". Cadernos do Arquivo Municipal, 2.ª série, 12, 117-140.
https://cadernosarquivo.cm-lisboa.pt/index.php/am/article/view/125?utm
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