14/10/2026
O pirata Bartolomeu Português (d’A História dos Bucaneiros na America) | «Outra tentativa ousada como esta, não menos notável, também lhe oferecerei. Um certo pirata de Portugal, aí chamado Bartolomeu Português, navegava num barco de trinta homens e quatro pequenos canhões desde a Jamaica, pelo Cabo de Corriente, em Cuba, onde encontrou um grande navio vindo de Maracaibo e Cartagena, com destino a Havana, bem munido de vinte grandes canhões e setenta homens, passageiros e marinheiros; ele prontamente atacou este navio, que eles a bordo defenderam resolutamente. O pirata, escapando do primeiro encontro, resolveu atacá-la com mais vigor do que antes, visto que ainda não havia sofrido grandes danos: fez isso com tanta determinação que finalmente, depois de uma longa e perigosa luta, tornou-se dono dela. Os portugueses perderam apenas dez homens e tiveram quatro feridos; de modo que ainda lhe restavam vinte combatentes, enquanto os espanhóis tinham o dobro do número. Tendo se apossado do navio, sendo o vento contrário para regressar à Jamaica, resolveram dirigir-se ao Cabo Santo António, (que f**a a oeste de Cuba), para lá reparar e captar água doce, da qual tinham então grande querer.
Estando muito perto do cabo acima mencionado, encontraram inesperadamente três grandes navios vindos da Nova Espanha, com destino a Havana; por estes, não conseguindo escapar, foram facilmente retomados, tanto navios quanto piratas, e todos feitos prisioneiros, e despojados de todas as riquezas que haviam levado pouco antes. A carga consistia em cento e vinte mil pesos de nozes de cacau, principal ingrediente do chocolate, e setenta mil pedaços de oito. Dois dias depois deste infortúnio, surgiu uma grande tempestade, que separou os navios uns dos outros. O grande navio, onde estavam os piratas, chegou a Campeche, onde muitos mercadores consideráveis vieram e saudaram o capitão; estes conheciam mesmo o pirata português, sendo famosos pelas muitas insolências, roubos e assassinatos que cometera na sua costa; que eles mantiveram frescos em sua memória.
No dia seguinte à sua chegada, os magistrados da cidade mandaram exigir que os prisioneiros embarcassem no navio, a fim de puni-los de acordo com o mérito; mas temendo que o capitão dos piratas escapasse (como havia feito anteriormente, sendo seu prisioneiro uma vez), eles consideraram mais seguro deixá-lo guardado a bordo por enquanto, enquanto erguiam uma forca para enforcá-lo no no dia seguinte, sem outro processo senão conduzi-lo do navio para o castigo; cujo boato foi levado a Bartolomeu Português, por meio do qual ele procurou todos os meios possíveis para escapar naquela noite. Com este desenho pegou em dois jarros de barro, onde os espanhóis transportam vinho de Espanha para as Índias Ocidentais, e fechou-os muito bem, pretendendo utilizá-los para nadar, como os inexperientes nessa arte fazem com rolhas ou esvaziam bexigas. Tendo feito esta preparação necessária, ele esperou quando todos deveriam estar dormindo; mas não conseguindo escapar à vigilância da sua sentinela, // esfaqueou-o com uma faca que comprara secretamente, e depois atirou-se ao mar com os jarros de barro acima mencionados; com a ajuda da qual, embora nunca tenha aprendido a nadar, chegou à costa e imediatamente foi para a mata, onde se escondeu por três dias, sem ousar aparecer, não comendo outro alimento senão ervas silvestres.
No dia seguinte, os da cidade fizeram uma busca diligente por ele na floresta, onde concluíram que ele estava. Os portugueses viram esta rigorosa investigação no oco de uma árvore, onde ele estava escondido; e ao retornar, ele fez o melhor possível para Del Golpho Triste, a quarenta léguas de Campeachy, onde chegou quinze dias após sua fuga; durante esse período, como também depois, suportou extrema fome e sede, não tendo outra provisão senão uma pequena cabaça com um pouco de água, além do medo de cair novamente nas mãos dos espanhóis. Ele não comeu nada além de alguns mariscos, que encontrou entre as rochas perto da costa do mar; e sendo obrigado a passar por alguns rios, sem saber nadar bem, encontrou finalmente uma prancha velha, que as ondas haviam levado para a praia, onde havia alguns pregos grandes; estes ele pegou e, com muito trabalho, afiou-os em uma pedra, até que os fez como facas, embora não tão bem; com estes, e nada mais, cortou alguns ramos de árvores, que juntou com gravetos e vimes, e fez o melhor que pôde um barco para levá-lo pelos rios. Chegando assim ao Cabo de Golpho Triste, como foi dito, encontrou um navio de piratas, camaradas seus, recentemente vindos da Jamaica.
A estes ele relatou todas as suas adversidades e infortúnios, e ao mesmo tempo desejou que lhe fornecessem um barco e vinte homens, companhia somente com a qual prometeu retornar a Campeachy e atacar o navio que estava no rio, pelo qual ele havia sido transportado. tirada quatorze dias antes. Eles logo atenderam ao seu pedido e equiparam-no com um barco adequado. Com esta pequena empresa decidiu executar o seu projeto, que executou com bravura oito dias depois de deixar Golpho Triste; por ter chegado a Campeachy, com coragem destemida e sem qualquer barulho, assaltou o referido navio. Os que estavam a bordo pensaram que se tratava de um barco vindo de terra que vinha trazer mercadorias contrabandeadas e por isso não estavam em posição de defesa; oportunidade que os piratas aproveitaram, atacaram-nos com tanta determinação que em pouco tempo obrigaram os espanhóis a se renderem.
Sendo donos do navio, imediatamente levantaram âncora e partiram do porto, para não serem perseguidos por outros navios. Fizeram-no com a maior alegria, vendo-se possuidores de um navio tão corajoso; especialmente os portugueses, que por uma segunda reviravolta da fortuna tornaram-se novamente ricos e poderosos, que recentemente estava naquele mesmo navio prisioneiro, condenado à forca: com esta compra planejou coisas maiores, que poderia ter feito, já que restava na embarcação havia tão grande quantidade de mercadorias ricas, embora a placa tivesse sido enviada para a cidade. Mas enquanto ele viajava para a Jamaica, perto da ilha de Pinos, no sul de Cuba, surgiu uma terrível tempestade, que atingiu os Rochedos Jardines, onde ela se perdeu; mas os portugueses e os seus companheiros escaparam numa canoa, na qual chegou à Jamaica, onde não demorou muito para partir em novas aventuras, mas nunca teve sorte depois.»
Tradução de Jorge Quinta-Nova, 2026, de The history of the Buccaneers of America; by Exquemelin, A. O. (Alexandre Olivier); Ringrose, Basil, d. 1686; Raveneau de Lussan; Mountauban, de, 1650?-1700; Perkins, Oliver L