17/10/2026
Quanto custa ser pobre?
Há números que conhecemos. E há números que nos f**am na cabeça.
Ao longo da minha vida profissional, aprendi a olhar para os números como aquilo que representam: uma forma de medir diversas realidades, identif**ar tendências e apoiar na tomada de decisões. Mas também aprendi que, quando falamos de pessoas, nenhum número conta a história completa. É por isso que, neste 17 de outubro, não queria escrever sobre pobreza enquanto conceito económico. Queria, sim, salientar o que esses números representam na vida das pessoas.
Quanto custa ser pobre?
Custa muito mais do que o dinheiro que falta no final do mês. Custa a tranquilidade de quem vive sem margem para um imprevisto, a liberdade de poder escolher e a capacidade de projetar o futuro para além das necessidades imediatas. Custa adiar oportunidades, abdicar de projetos e fazer escolhas difíceis entre necessidades que, numa sociedade verdadeiramente justa, não deveriam ser incompatíveis. A pobreza não se resume, por isso, à privação material. É também uma limitação real da liberdade individual e das possibilidades de construir um futuro diferente. Limitação essa que, embora nem sempre seja imediatamente visível, se materializa nas escolhas quotidianas de quem vive com recursos insuficientes e vê, dia após dia, reduzido o seu espaço de decisão. Está na família que faz contas no supermercado e vai retirando produtos do carrinho. Está no trabalhador que recebe o seu salário e percebe que, depois de fazer face às despesas correntes – renda, alimentação, energia, despesa com os filhos, entre outras –, não sobra praticamente nada. Está no idoso que escolhe cuidadosamente onde pode gastar a sua pensão, tendo muitas vezes de optar entre alimentação e cuidados de saúde. Está na mãe que abdica de algo para si em prol de uma necessidade mais urgente no seio familiar.
E está também na Trofa.
Vivemos num concelho que cresceu e que tem uma economia dinâmica, empresas, comércio e muitas pessoas que todos os dias trabalham para construir o seu futuro. Mas crescimento económico não signif**a, por si só, desenvolvimento económico, nem garante uma repartição equitativa dos recursos e das oportunidades. É precisamente por isso que importa olhar para além dos indicadores de crescimento e perceber como vivem as pessoas que fazem parte do nosso concelho. Em 2025, foram entregues na Trofa 953 cabazes de Natal a famílias sinalizadas pelas instituições sociais e pelos técnicos de intervenção social. Quando olhamos para este número, podemos simplesmente registá-lo numa notícia ou num relatório. Eu prefiro abordá-lo de outra forma:
O que signif**a este número na vida dessas famílias?
Signif**a que há pessoas na nossa terra para as quais garantir alimentos na mesa continua a ser uma preocupação. E isso deve fazer-nos parar e refletir. Não para procurar culpados fáceis, mas para encontrar alternativas concretas e sustentáveis. Porque pobreza não é necessariamente sinónimo de desemprego. Há pessoas empregadas que continuam a viver com enormes dificuldades. Há famílias para quem uma renda mais elevada, uma doença, uma reparação no carro ou uma despesa inesperada pode ser suficiente para desequilibrar todo o seu orçamento.
E há ainda uma dimensão da pobreza que me preocupa particularmente: a pobreza das mulheres. As mulheres continuam a enfrentar, ao longo da vida, desigualdades que têm consequências económicas muito concretas. Salários mais baixos, interrupções nas carreiras profissionais, uma maior responsabilidade pelas tarefas familiares, o recurso mais frequente ao trabalho a tempo parcial e uma maior exposição à precariedade laboral acabam também por se refletir na sua autonomia financeira e, mais tarde, no valor das suas pensões. E aqui os números voltam a ser importantes. Porque quando uma mulher não tem independência económica, não estamos apenas perante uma desigualdade de rendimento. Estamos perante uma desigualdade de liberdade. A liberdade de escolher um trabalho. A liberdade de sair de uma relação. A liberdade de decidir sobre a sua vida. A liberdade de construir um futuro sem depender economicamente de outra pessoa. É por isso que, para mim, combater a pobreza é também uma questão de igualdade e de emancipação das mulheres.
Na Trofa temos instituições, técnicos, profissionais e voluntários que fazem diariamente um trabalho extraordinário junto de quem mais precisa. Conhecer essa realidade também nos deve lembrar que as respostas sociais são fundamentais. Mas não podemos f**ar apenas pela resposta à pobreza depois de ela acontecer. Temos de atuar antes. Na habitação, no emprego, nos salários, na educação, no apoio às famílias, na igualdade de oportunidades, na autonomia económica das mulheres.
Enquanto economista, sei que as políticas públicas têm de ser avaliadas pelos seus resultados e que os recursos são sempre limitados. Mas, enquanto cidadã e enquanto Coordenadora das Mulheres Socialistas da Trofa, acredito que há uma pergunta incontornável: Que escolhas estamos a permitir que as pessoas façam com a vida que têm?
Uma sociedade não se mede apenas pelo seu crescimento, pelo número de empresas ou pelo rendimento médio. Também se mede pela forma como responde às situações de vulnerabilidade e garante condições de dignidade a quem mais precisa. E talvez seja esse o verdadeiro desafio deste Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza: não nos limitarmos a olhar para os números da pobreza, mas percebermos a realidade social que esses números revelam.
Na Trofa, estes indicadores revelam a persistência de situações de vulnerabilidade que não podem ser ignoradas. Mais do que medir a dimensão do problema, importa assegurar que as políticas públicas e as respostas sociais são capazes de atuar sobre as suas causas e de reduzir, de forma sustentada, os fatores que estão na origem da pobreza e da exclusão social.
Erradicar a pobreza não é apenas garantir que ninguém f**a privado do essencial. É criar condições para que cada pessoa possa exercer plenamente a sua autonomia, concretizar oportunidades e construir um projeto de vida com dignidade.
Joana Pereira
Coordenadora Concelhia MS-ID Trofa